estou me lembrando de algumas
horas atrás, quando estávamos
sentados na minha cama fazendo
tsurus de papel e rindo
{eu me deitei em seu peito
e pude ouvir seus pulmões
enchendo de ar, senti a sua
- pele lisa, seu cheiro meio doce
então, eu levantei a cabeça
e te beijei - é claro que nós
acabaríamos nos amando, é delicado
assim; e agora é plena madrugada
e sem motivo algum pensei em você,
pensei que o fato de amar alguém
talvez seja o sentido da vida, afinal,
o que me faz ser mais eu, do que
me sentar à cama e fazer tsurus de
papel com você? pra que os tsurus
de papel ninguém sabe, mas mesmo
assim continuamos dobrando as
folhas, pra que a vida? ninguém sabe,
mas mesmo assim continuamos nos
encontrando quase que todos os dias,
você sempre abre a porta e seu
cachorrinho corre até meus pés e
começa a pular, eu sempre olho pra
você vindo até o portão e me beijando,
sempre acabamos dizendo que
estávamos com saudades, por quê?
ninguém sabe.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
quinta-feira, 14 de maio de 2015
pergunte à alice quando ela tiver 10 pés de altura - venturini.
eu jogo
em um silêncio obtuso
em um debate entre partes
no calar das palavras tagarelas
no fogaréu do eterno ouvir-se
em um silêncio obtuso
em um debate entre partes
no calar das palavras tagarelas
no fogaréu do eterno ouvir-se
eu jogo
tudo que sou
porque sou o que digo e sôo
como aquilo que escuto em uma espiral
como anjos cantando na capela terça-feira
tenho medo da poesia
porque ela te come em palavras
e, portanto, jogo com ela em um tom jocoso
para à distrair enquanto me faço real, parado,
me constituo nela mesma, porque sou ela,
sou como a palavra com que sôo amedrontado
dizer nunca teve
tanta força como no dia em que dissemos
e dissemos que dizer nunca fez tanto sentido
a palavra não tem forma a não ser a que ela forma;
a não ser aquela forma; a não ser aquela fórmula
a palavra é tempo e o tempo é tão sólido quanto o
nada e todo mundo já sabe que a vida é nada
eu jogo à força
eu jogo a força
mas com que força continuo eu a jogar?
porque quando a gente menos espera
percebe que a vida é um absurdo sem tamanho
e sem dimensões.
tudo que sou
porque sou o que digo e sôo
como aquilo que escuto em uma espiral
como anjos cantando na capela terça-feira
tenho medo da poesia
porque ela te come em palavras
e, portanto, jogo com ela em um tom jocoso
para à distrair enquanto me faço real, parado,
me constituo nela mesma, porque sou ela,
sou como a palavra com que sôo amedrontado
dizer nunca teve
tanta força como no dia em que dissemos
e dissemos que dizer nunca fez tanto sentido
a palavra não tem forma a não ser a que ela forma;
a não ser aquela forma; a não ser aquela fórmula
a palavra é tempo e o tempo é tão sólido quanto o
nada e todo mundo já sabe que a vida é nada
eu jogo à força
eu jogo a força
mas com que força continuo eu a jogar?
porque quando a gente menos espera
percebe que a vida é um absurdo sem tamanho
e sem dimensões.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Corcunda. por Henrique Rodrigues.
"Eu realmente acho bonita gente torta
A boca torta, de tanto beijo a torto e a direito
Eu acho meio morta gente que tem jeito
Eu acho realmente sexy, gente da cabeça torta
Pendendo do pescoço, vendo o mundo meio torto
Como ele sempre foi
É sério que dá raiva, dá até uma alergia
Vocês que tanto buscam uma tal simetria
É bom mesmo ver gente do ombro torto
Carregam o peso da vida de um lado
Levantam as alegrias, do outro
Ah, vai morrer pra lá!
Eu não nasci quadrado
Nasci torto, sou corcunda
Você que quer ser certo
Nem preciso de uma filosofia tão profunda
O mundo é um deserto
Então, meu filho
Tira a cabeça da bunda
E fica torto
É sexy, é fácil e de graça
E se você achar que isso é uma desgraça
Eu te digo que é pior o desgosto
De ver o povo querer ser certo sendo torto"
quarta-feira, 18 de março de 2015
O último sache de chá.
Minhas mãos tremem
ao tocar seu corpo
em partes cada vez
mais particulares
arranho sua alma,
me torno movimento
cada vez mais estético
and I feel your long hair
all over my body
[Um corte na cena]
há chá fervendo em
uma panela
dentro da minha cozinha
por entre os corredores
das minhas artérias
no abdômen do meu quarto
você cavalga - and ride;
manchas de batom
no travesseiro, vermelho
nos meus lábios
[Corte II]
A cena agora:
eu sentado em um
trem cheio/vazio
divagando em devaneios
sobre borboletas transcendentais
Você tem a minha palavra
e o que ela diz é sobre
essa multidão de ninguém...
"Ele acorda às 6 da manhã
coloca uma roupa social
e ninguém sabe pra quê
Ela acorda às 5:45 passa ma-
quiagem forte e ninguém
verá quem ela irá beijar
Eu acordo às 5:50 e escrevo
poesia que ninguém sente"
Estação Pinheiros:
A luz do diz consome
minhas pupilas, há um
gosto forte na minh'boca
caminho sonolento pela
calçada, rua sumidouro,
esquinas frias (18, 17 graus,
início de outono).
[Corta para uma
sala de aula]
Giz 1963, psicometria,
vozes ecoam na sala semi-
cheio-vazio, cartilhas de ética,
rorschach às 8:30 da manhã,
magnitude, intensidade,
gradação - axioma de
identidade...
[Corte IV]
Sala de estar, almoço
em família, "estar" - um
eu lançando-se em direção
a um oceano de infinitas
possibilidades...
Luz, câmera...
Luz nos seus lhos
intensidade no seu eu,
na respiração ofegante
Luz, câmera...
[Corte V]
Sofá, sala escura
mãos, seios, bunda,
cabelos - sinto seu corpo,
(sinto sem questionar
que é sentir) e tenho vontade
de sentir mais ainda
[Corta para agora]
Uma mesa de escrever
papéis riscados com o
proto-poema (futuro)
"você acredita em seus sonhos?"
a névoa, os olhos embaçados,
o arrepio na coluna dorsal,
o eco, o eco, o eco...
ao tocar seu corpo
em partes cada vez
mais particulares
arranho sua alma,
me torno movimento
cada vez mais estético
and I feel your long hair
all over my body
[Um corte na cena]
há chá fervendo em
uma panela
dentro da minha cozinha
por entre os corredores
das minhas artérias
no abdômen do meu quarto
você cavalga - and ride;
manchas de batom
no travesseiro, vermelho
nos meus lábios
[Corte II]
A cena agora:
eu sentado em um
trem cheio/vazio
divagando em devaneios
sobre borboletas transcendentais
Você tem a minha palavra
e o que ela diz é sobre
essa multidão de ninguém...
"Ele acorda às 6 da manhã
coloca uma roupa social
e ninguém sabe pra quê
Ela acorda às 5:45 passa ma-
quiagem forte e ninguém
verá quem ela irá beijar
Eu acordo às 5:50 e escrevo
poesia que ninguém sente"
Estação Pinheiros:
A luz do diz consome
minhas pupilas, há um
gosto forte na minh'boca
caminho sonolento pela
calçada, rua sumidouro,
esquinas frias (18, 17 graus,
início de outono).
[Corta para uma
sala de aula]
Giz 1963, psicometria,
vozes ecoam na sala semi-
cheio-vazio, cartilhas de ética,
rorschach às 8:30 da manhã,
magnitude, intensidade,
gradação - axioma de
identidade...
[Corte IV]
Sala de estar, almoço
em família, "estar" - um
eu lançando-se em direção
a um oceano de infinitas
possibilidades...
Luz, câmera...
Luz nos seus lhos
intensidade no seu eu,
na respiração ofegante
Luz, câmera...
[Corte V]
Sofá, sala escura
mãos, seios, bunda,
cabelos - sinto seu corpo,
(sinto sem questionar
que é sentir) e tenho vontade
de sentir mais ainda
[Corta para agora]
Uma mesa de escrever
papéis riscados com o
proto-poema (futuro)
"você acredita em seus sonhos?"
a névoa, os olhos embaçados,
o arrepio na coluna dorsal,
o eco, o eco, o eco...
segunda-feira, 16 de março de 2015
pássaros - pedro venturini.
que se abram
as portas das prisões
e outras faculdades [re-
corte em cut-up
de um livro velho-novo
sobre uma paris dos
anos 60] e meus tédios
ninguém comeu junto
sabe, nossas histórias
são como barcos à deriva
em meio a névoa no oceano;
nunca se pode enxergar
à frente e o que já foi
parece distorcido e distante
a experiência do real
não é tão mais real
estar bêbado é mais real
do que estar sóbrio
seus atos-reflexo se tornam
mais impulsivos
todo sentido passa
a ser questionado
não há certezas quando
se está bêbado
apenas a de que
há uma possibilidade
para tudo - ninguém
vê com os olhos de ninguém
são lentes incompatíveis
caminhos incompatíveis
[corte] para uma
auto-estrada vazia
com um céu azul triste
e o sol se pondo
num horizonte já negro
- com nuvens de chuva
a estrada, leva à lugar algum
à peças de xadrez prestes
a ganhar ou perder o jogo
e ninguém sabe
até o último segundo
até o último
cavaleiro se jogar
do penhasco
[ninguém ampara
o cavaleiro do mundo
delirante; mendes, murilo]
até a próxima
cerveja
[acendo o último
cigarro do mundo
trago silenciosamente
e busco esperança;
marcolino, alvaro]
todas as dores
como lágrimas
num oceano de merda
{beijos no
alvorecer de um
novo dia - de uma
nova fotografia}
retratos de infância
pendurados na
parede do meu
coração, textos
bêbados às 22:56
no meu quarto sozinho
pensando se há algum
sentido nisso tudo
quanto tempo
leva uma vida?
uma cena rápida
de um carro dirigindo
em uma estrada,
vagos trechos
que mal podem
ser percebidos
com todas essas
luzes brilhando
solitárias na noite
nos postes, nas casas,
nos apartamentos
e o bêbados urrando
para a lua, sozinhos,
perdidos, como todos
nós. eu acredito
nas pessoas e na sua
santa sinceridade
eu acredito que
um dia a estrada se
encerra e o que fica
é uma questão
sobre tudo o que
pensamos à respeito
disso, da experiência
do real imaginário
dos nossos sonhos.
as portas das prisões
e outras faculdades [re-
corte em cut-up
de um livro velho-novo
sobre uma paris dos
anos 60] e meus tédios
ninguém comeu junto
sabe, nossas histórias
são como barcos à deriva
em meio a névoa no oceano;
nunca se pode enxergar
à frente e o que já foi
parece distorcido e distante
a experiência do real
não é tão mais real
estar bêbado é mais real
do que estar sóbrio
seus atos-reflexo se tornam
mais impulsivos
todo sentido passa
a ser questionado
não há certezas quando
se está bêbado
apenas a de que
há uma possibilidade
para tudo - ninguém
vê com os olhos de ninguém
são lentes incompatíveis
caminhos incompatíveis
[corte] para uma
auto-estrada vazia
com um céu azul triste
e o sol se pondo
num horizonte já negro
- com nuvens de chuva
a estrada, leva à lugar algum
à peças de xadrez prestes
a ganhar ou perder o jogo
e ninguém sabe
até o último segundo
até o último
cavaleiro se jogar
do penhasco
[ninguém ampara
o cavaleiro do mundo
delirante; mendes, murilo]
até a próxima
cerveja
[acendo o último
cigarro do mundo
trago silenciosamente
e busco esperança;
marcolino, alvaro]
todas as dores
como lágrimas
num oceano de merda
{beijos no
alvorecer de um
novo dia - de uma
nova fotografia}
retratos de infância
pendurados na
parede do meu
coração, textos
bêbados às 22:56
no meu quarto sozinho
pensando se há algum
sentido nisso tudo
quanto tempo
leva uma vida?
uma cena rápida
de um carro dirigindo
em uma estrada,
vagos trechos
que mal podem
ser percebidos
com todas essas
luzes brilhando
solitárias na noite
nos postes, nas casas,
nos apartamentos
e o bêbados urrando
para a lua, sozinhos,
perdidos, como todos
nós. eu acredito
nas pessoas e na sua
santa sinceridade
eu acredito que
um dia a estrada se
encerra e o que fica
é uma questão
sobre tudo o que
pensamos à respeito
disso, da experiência
do real imaginário
dos nossos sonhos.
terça-feira, 10 de março de 2015
Azul como a noite - venturini.
Não!
Não grite!
Não permita que te digam,
o que você deve fazer
mas se fizerem isso
não grite! não dê a eles
o circo que esperam que dê
Não grite!
Não permita que te digam,
o que você deve fazer
mas se fizerem isso
não grite! não dê a eles
o circo que esperam que dê
Não!
Não se atente
ao bisturi, a cirurgia em si
é o que importa
e toda carne quando cortada
sangra litros
Não!
Não abaixe a cabeça!
Eles vão gritar e dizer
que você não deveria
ter desobedecido o que eles
disseram, mas tudo isso é em vão
agora que já fez mantenha-se em pé
Não!
Não ligue a tevê!
Lá é o lar dos moralistas
e cada dia um novo traficante
é preso e uma criança chora na tela
mas todos se esquecem dos bilhões
sonegados em impostos
Não!
Não respire o monóxido de carbono deles!
Tudo isso foi feito
pensando na gorda barriga
deles e não há mais frutos
que procriem doce neste lugar.
Não!
Não diga que estou paranoico!
Ainda me resta um
último suspiro - se não estou
mal das contas e com ele
vos digo que a única
virtude é toda aquela
que é verdadeira.
Não se atente
ao bisturi, a cirurgia em si
é o que importa
e toda carne quando cortada
sangra litros
Não!
Não abaixe a cabeça!
Eles vão gritar e dizer
que você não deveria
ter desobedecido o que eles
disseram, mas tudo isso é em vão
agora que já fez mantenha-se em pé
Não!
Não ligue a tevê!
Lá é o lar dos moralistas
e cada dia um novo traficante
é preso e uma criança chora na tela
mas todos se esquecem dos bilhões
sonegados em impostos
Não!
Não respire o monóxido de carbono deles!
Tudo isso foi feito
pensando na gorda barriga
deles e não há mais frutos
que procriem doce neste lugar.
Não!
Não diga que estou paranoico!
Ainda me resta um
último suspiro - se não estou
mal das contas e com ele
vos digo que a única
virtude é toda aquela
que é verdadeira.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Sr.Chinaski - Venturini
Não tente Henry,
não há nada lá
pra gente como nós:
os fracos, os esquecidos...
mas duvido que algum
deles aguente beber
tanta porcaria barata
por tanto tempo assim,
duvido que algum deles
aguente passar tanta
merda assim quanto
a gente tem aguentado
esses anos todos,
aqui nesse bairro sujo,
nessas vielas não metafóricas
com essa pobreza que
desdenha dos nossos sonhos
e chega a nos fazer passar fome,
eu duvido que algum deles
aguente acordar em plena
madrugada e perceber que sua
existência não significa muito.
Não tente Henry,
é melhor que sejamos os
vagabundos e os imorais
se ser vagabundo e imoral
é não ter medo de reconhecer
que o mundo está feito
uma carruagem sem cocheiro
indo em direção à um penhasco
e nós não queremos fazer
parte disso, não é Henry?
Não somos nós que iremos
apertar o botão que dispara
a bomba atômica! Não seremos
nós a abrir o bueiro onde estão
vivendo todos esses ratos
que irão dominar o mundo
com seu plano civilizatório caótico...
Não, Henry... a gente só vai
ficar aqui bebendo mais um pouco,
fumando e vendo as estrelas,
a gente prefere não tentar
ser parte desse jogo imobiliário
onde alguém sempre tem que pagar
pro outro deixá-lo em paz.
não há nada lá
pra gente como nós:
os fracos, os esquecidos...
mas duvido que algum
deles aguente beber
tanta porcaria barata
por tanto tempo assim,
duvido que algum deles
aguente passar tanta
merda assim quanto
a gente tem aguentado
esses anos todos,
aqui nesse bairro sujo,
nessas vielas não metafóricas
com essa pobreza que
desdenha dos nossos sonhos
e chega a nos fazer passar fome,
eu duvido que algum deles
aguente acordar em plena
madrugada e perceber que sua
existência não significa muito.
Não tente Henry,
é melhor que sejamos os
vagabundos e os imorais
se ser vagabundo e imoral
é não ter medo de reconhecer
que o mundo está feito
uma carruagem sem cocheiro
indo em direção à um penhasco
e nós não queremos fazer
parte disso, não é Henry?
Não somos nós que iremos
apertar o botão que dispara
a bomba atômica! Não seremos
nós a abrir o bueiro onde estão
vivendo todos esses ratos
que irão dominar o mundo
com seu plano civilizatório caótico...
Não, Henry... a gente só vai
ficar aqui bebendo mais um pouco,
fumando e vendo as estrelas,
a gente prefere não tentar
ser parte desse jogo imobiliário
onde alguém sempre tem que pagar
pro outro deixá-lo em paz.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Sobre a produção poética [Artigo] - Pedro Venturini.
A produção poética como retrato do real parece ser uma concepção que
cada dia mais se afasta da visão popular sobre este tipo de arte,
percebemos também que com este afastamento vemos a poesia ser encarada
como informal, desprovida da categoria de utensílio útil para a vida
quotidiana - aqui, não questiono nem o fator de ser minoritária (isto sempre
foi) mas sim o fato de cada vez mais ser tratada como desnecessária,
tendo em vista que não teria nenhuma função em mundo que cada vez mais
adota a concepção positivista de causa/efeito.
Ora, uma vez em que se afirma que a poesia não contém a relação causa/efeito, logo se percebe a ingenuidade de seu enunciador, uma vez que o efeito e causa da poesia já estão presentes na sua própria forma de ser: a poesia é causada pelo real e tem como efeito lançar-se sobre este mesmo real na intuição de transformá-lo - com um novo olhar ou uma nova concepção. Ela é causada pelo real à partir do momento em que é expressão de alguma manifestação deste real sobre a figura do poeta, é o mundo que transforma o poeta e o faz transformar o mundo, neste caso o poeta é ferramenta de linguagem, logo a causa retroalimenta o efeito e assim por diante. Indo mais além, posso dizer que é pura babaquice essa necessidade que se criou de ter uma causa/efeito para tudo, as coisas podem e devem muito bem serem causas de si próprias, sem essa necessidade de lançar-se à frente o tempo todo - mas daí já é opinião e divergência ideológica profunda e me contento em quebrar a lógica dentro dos preceitos do próprio enunciador.
Já sobre a poesia ser encarada como algo "informal" e sem grandes utilidades dentro da linguagem (criando assim uma espécie de oposição entre a poesia e a prosa) digo que isso é puro fetiche literário, a poesia é uma eterna construção e que depende necessariamente da experimentação do real para existir - não que a prosa não dependa, veja bem minha intenção aqui não é criar uma oposição entre elas, só justificar a importância das duas - a coisa com a poesia se torna ainda mais complicada à partir do momento em que ela serve como instrumento de quebra e ruptura com dogmas literários que estão em cima dela e a constituem (os quais a prosa à muito já não se vê dominada) como por exemplo a necessidade da existência de uma métrica, uma rima, estética e assim por diante - problema todo é que não há mais necessidade em permanecer presa a estas correntes e ao quebrar com elas a poesia passa a ser julgada como rebelde e já não mais necessária para a literatura, eu me pergunto, por que há tanto interesse assim na literatura em manter uma espécie de status quo? Acho que é caso para se pensar com calma...
Bom este texto é básico e tem como função/efeito (já que adoram se apegar a essa necessidade estranha) levantar algumas questões e deixar espaço aberto para que cada um possa responde-las de alguma forma, além é claro de provocar os detentores do saber moral e vigilantes da linguagem escrita e falada (os verdadeiros empata-foda da linguagem). Por fim deixo a dica de leitura: Manifestos de Claudio Willer - Editora Azougue por R$ 36,90.
Ora, uma vez em que se afirma que a poesia não contém a relação causa/efeito, logo se percebe a ingenuidade de seu enunciador, uma vez que o efeito e causa da poesia já estão presentes na sua própria forma de ser: a poesia é causada pelo real e tem como efeito lançar-se sobre este mesmo real na intuição de transformá-lo - com um novo olhar ou uma nova concepção. Ela é causada pelo real à partir do momento em que é expressão de alguma manifestação deste real sobre a figura do poeta, é o mundo que transforma o poeta e o faz transformar o mundo, neste caso o poeta é ferramenta de linguagem, logo a causa retroalimenta o efeito e assim por diante. Indo mais além, posso dizer que é pura babaquice essa necessidade que se criou de ter uma causa/efeito para tudo, as coisas podem e devem muito bem serem causas de si próprias, sem essa necessidade de lançar-se à frente o tempo todo - mas daí já é opinião e divergência ideológica profunda e me contento em quebrar a lógica dentro dos preceitos do próprio enunciador.
Já sobre a poesia ser encarada como algo "informal" e sem grandes utilidades dentro da linguagem (criando assim uma espécie de oposição entre a poesia e a prosa) digo que isso é puro fetiche literário, a poesia é uma eterna construção e que depende necessariamente da experimentação do real para existir - não que a prosa não dependa, veja bem minha intenção aqui não é criar uma oposição entre elas, só justificar a importância das duas - a coisa com a poesia se torna ainda mais complicada à partir do momento em que ela serve como instrumento de quebra e ruptura com dogmas literários que estão em cima dela e a constituem (os quais a prosa à muito já não se vê dominada) como por exemplo a necessidade da existência de uma métrica, uma rima, estética e assim por diante - problema todo é que não há mais necessidade em permanecer presa a estas correntes e ao quebrar com elas a poesia passa a ser julgada como rebelde e já não mais necessária para a literatura, eu me pergunto, por que há tanto interesse assim na literatura em manter uma espécie de status quo? Acho que é caso para se pensar com calma...
Bom este texto é básico e tem como função/efeito (já que adoram se apegar a essa necessidade estranha) levantar algumas questões e deixar espaço aberto para que cada um possa responde-las de alguma forma, além é claro de provocar os detentores do saber moral e vigilantes da linguagem escrita e falada (os verdadeiros empata-foda da linguagem). Por fim deixo a dica de leitura: Manifestos de Claudio Willer - Editora Azougue por R$ 36,90.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Percebo que os trilhos do trem estão todos enferrujados enquanto caminho cambaleante por um terreno baldio a uns cem metros da estação, devem ser umas sete ou oito horas, o sol já se pôs mas ainda percebo uma luz vermelha no horizonte, está tudo escuro, a grama é alta, sento-me em uns ferro-velhos amontoados na beira do trilho, na estação - não tão distante assim para que a pudesse perder de vista, percebo alguns vultos, um trem passa rasgando pelo trilho, levantando vento e poeira, bebo um gole do Scotch que tenho em mãos e respiro aquele ar denso e quente. As nuvens negras no céu parecem cantar uma oração premonitória - em breve irá chover, passo a mão pela minha barba e então bebo mais um gole daquele uísque, procuro cigarros no bolso e percebo um maço quase vazio, acendo - talvez o último. Essa sensação de estar sozinho aqui observando essa agitação vazia das pessoas é como se um delta blues tocasse minha decadência como humano. Trago o cigarro lembrando da sua pressa em pegar o metro naquele dia, da forma com que bateu a porta na nossa última discussão, do seu vestido florido curto na varanda do seu apartamento e da minha mão no meio da suas pernas. Solto a fumaça, publicaram uma das minhas crônicas dia desses no jornal do bairro, um crítica ao transporte público encoberta na história de um cobrador incompetente - você vivia dizendo que eu deveria mandar alguma coisa para lá, então eu o fiz, pensei em te escrever falando sobre isso, mas já estava muito tarde e eu estava muito bêbado. Fico feliz que tenha mandado um cartão no meu aniversário - você assinou "de Buenos Aires.", fico me perguntando se ainda pensa em mim, dia desses a Clara te viu no supermercado - disse que você tinha um sorriso sincero no rosto, mas a verdade é que teu sorriso sempre foi sincero. Joguei a bituca fora, chutei o chão só para levantar areia e a ver caindo devagar, atravessei o trilho, segui por uma viela escura até a avenida principal e de lá até a estação, havia uma banca de jornais, entrei e comprei a "Folha de S.Paulo", deixei ali boa parte das moedas que tinha no bolso, coloquei o jornal e minha garrafa de uísque na sacola, fui até a estação e comprei um bilhete, me sentei em um banco esperando o trem, havia duas garotas conversando, a saia azul de uma deixava à mostra a pele branca de suas pernas, eu ri sozinho ao perceber que a "comia com os olhos" - o trem chegou e em casa eu me sentei para conversar com meu amigo escocês enquanto algum disco do Bo Diddley tocava, enquanto o uísque descia quente eu me perguntava o que faz as pessoas pensarem que é fácil dizer a deus à alguém? Fui até a varanda, a chuva já estava leve, os carros passavam na rua, uma mulher discutia com um homem em um carro estacionado, a cidade grunhia e me convidava para sua noite - resolvi ir ao nosso bar favorito. "Uma dose de tequila ouro por favor.", me sentei em uma mesa próxima à janela, as ruas restavam molhadas e tudo isso aí fora continuava não fazendo sentido algum. A única certeza da vida continuava sendo sua incerteza, paguei a conta com o cartão e caminhei algumas quadras não pensando em nada, talvez eu esteja passando muito tempo sozinho e talvez as pessoas não tenham muita ideia do que falam sobre as outras. Novamente, tudo é incerto e continua assim até o momento em que passa, na verdade o passado não conta mentiras. Respirei fundo, a noite não estava tão ruim assim. Havia cartas na caixa do correio, nenhuma delas era sua. O governador falava no noticiário enquanto eu vomitava na privada. Achei cigarros na escrivaninha e te escrevi uma carta.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
stand-up comedy com leite - venturini.
quer ouvir uma piada?
um certo dia um sujeito descobre
que tudo isso não significa nada
então ele sobe no telhado de sua casa
e pula com uma pedra de uns 50kg
amarrada ao seu pé esquerdo
deixando um bilhete suicida em sua meia
"ainda há aqueles que acreditam
que a bolsa de valores vale alguma coisa."
- já podem rir, a piada é essa
e se não fosse tão trágica seria cômica,
mas não riam demais tem outra coisa
quando chegou do outro lado
esse mesmo cara descobriu
que tudo é só um vazio de expectativas
então ele se sentou ao lado de um
monge tibetano que dizia já ter conversado
com cristo e esperou a aurora
afinal, não há porque ter pressa na
eternidade não é?
quem me contou essa piada
certa vez, foi um velho em um bar
só queria me lembrar do nome dele...
um certo dia um sujeito descobre
que tudo isso não significa nada
então ele sobe no telhado de sua casa
e pula com uma pedra de uns 50kg
amarrada ao seu pé esquerdo
deixando um bilhete suicida em sua meia
"ainda há aqueles que acreditam
que a bolsa de valores vale alguma coisa."
- já podem rir, a piada é essa
e se não fosse tão trágica seria cômica,
mas não riam demais tem outra coisa
quando chegou do outro lado
esse mesmo cara descobriu
que tudo é só um vazio de expectativas
então ele se sentou ao lado de um
monge tibetano que dizia já ter conversado
com cristo e esperou a aurora
afinal, não há porque ter pressa na
eternidade não é?
quem me contou essa piada
certa vez, foi um velho em um bar
só queria me lembrar do nome dele...
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Maré
"A poesia é subversão do corpo."
- Octavio Paz.
"uno"
grita o corpo
enquanto a alma escorre pela carne
e se transforma em febre até os ossos
se torna jardim nos fundos da casa
e cor nas paredes opacas de antes
e o desejo dos alicerces agora é também
vibração das cortinas e do vento leve
que toma por completo a sala de estar
a alma sorri e se sasseia no ventre do corpo
que diz: "bem aventurado seja este matrimônio"
e juntos vibram, cantam, gozam e são
- o corpo que antes se envergava
para colher seus vestígios ao chão
agora admira a aurora e os céus
o corpo que antes era raquítico
e escondia suas vergonhas
agora beija a alma e se lambuza
com o batom vermelho do tempo
o corpo que antes era fardo
sendo carregado e arrastado por aí
agora é fruto de prazer
o corpo que antes era quieto
agora se admira com os mistérios
da sua doce completude.
grita o corpo
enquanto a alma escorre pela carne
e se transforma em febre até os ossos
se torna jardim nos fundos da casa
e cor nas paredes opacas de antes
e o desejo dos alicerces agora é também
vibração das cortinas e do vento leve
que toma por completo a sala de estar
a alma sorri e se sasseia no ventre do corpo
que diz: "bem aventurado seja este matrimônio"
e juntos vibram, cantam, gozam e são
- o corpo que antes se envergava
para colher seus vestígios ao chão
agora admira a aurora e os céus
o corpo que antes era raquítico
e escondia suas vergonhas
agora beija a alma e se lambuza
com o batom vermelho do tempo
o corpo que antes era fardo
sendo carregado e arrastado por aí
agora é fruto de prazer
o corpo que antes era quieto
agora se admira com os mistérios
da sua doce completude.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
para g. de algum lugar que não é aqui - parte II
o sonho que se dissolve
nada mais é do que a vida
que escorre em condensação
por entre os fragmentos do dia
e penetra a memória devagar
como flashes de cinema
gravando aos poucos retratos
na escultura da eternidade
seu sorriso não ousa desbotar
porque quero que ele permaneça
e nesses momentos a irrealidade
da vida se mostra aos meus olhos
como uma flor silvestre e rara
mas que nos acompanha dia-a-dia
os momentos não são concretos
como nos faz acreditar a medicina
ou a física quântica da história
são apenas devaneios vívidos
daquilo que nos parece ser
os segundos valem menos
do que os sentimentos que são
uma tatuagem na essência do ser
e uma metáfora para o sentido de
tudo isso que nos cerca aqui e agora
seu sorriso não ousa desbotar
da minha memória frágil e inocente
pois fiz questão de deixa-lo guardado
a felicidade está nele - a sua e a minha
quero que dure mais um pouco
e esse "mais um pouco" pode
durar ainda mais e assim por diante
pois o que vale nessa historia
de músico viajante nos trens de carga
da vida é o fato de que sempre estamos
preparados para nos sentir bem
seu sorriso não ousa desbotar
em mim e espero que em você também
sentemos um pouco porque o sol já está
para se pôr e faço questão de que
ele ainda nos assista juntos esta noite.
nada mais é do que a vida
que escorre em condensação
por entre os fragmentos do dia
e penetra a memória devagar
como flashes de cinema
gravando aos poucos retratos
na escultura da eternidade
seu sorriso não ousa desbotar
porque quero que ele permaneça
e nesses momentos a irrealidade
da vida se mostra aos meus olhos
como uma flor silvestre e rara
mas que nos acompanha dia-a-dia
os momentos não são concretos
como nos faz acreditar a medicina
ou a física quântica da história
são apenas devaneios vívidos
daquilo que nos parece ser
os segundos valem menos
do que os sentimentos que são
uma tatuagem na essência do ser
e uma metáfora para o sentido de
tudo isso que nos cerca aqui e agora
seu sorriso não ousa desbotar
da minha memória frágil e inocente
pois fiz questão de deixa-lo guardado
a felicidade está nele - a sua e a minha
quero que dure mais um pouco
e esse "mais um pouco" pode
durar ainda mais e assim por diante
pois o que vale nessa historia
de músico viajante nos trens de carga
da vida é o fato de que sempre estamos
preparados para nos sentir bem
seu sorriso não ousa desbotar
em mim e espero que em você também
sentemos um pouco porque o sol já está
para se pôr e faço questão de que
ele ainda nos assista juntos esta noite.
sábado, 31 de janeiro de 2015
01/02/15
o sorriso
e o sussurro
em seu ouvido
em uma tarde
ganha que conquista
a memória em um
affair despretensioso
mas correm
as memórias
e choram as
pretensões
com o impacto
perdido do sopro
que gera afastamento
logo
batem à porta
batem na porta
jogam copos vazios
em direção à paredes
de branquidão interminável
sem proposito ou sentido
tudo se torna randômico
depois de um tempo
e reverbera se tornando
o sangue nas mãos
que mancha as paredes,
dissimula as linhas,
subverte o pensamento
e cala o sussurro
e seu eco.
e o sussurro
em seu ouvido
em uma tarde
ganha que conquista
a memória em um
affair despretensioso
mas correm
as memórias
e choram as
pretensões
com o impacto
perdido do sopro
que gera afastamento
logo
batem à porta
batem na porta
jogam copos vazios
em direção à paredes
de branquidão interminável
sem proposito ou sentido
tudo se torna randômico
depois de um tempo
e reverbera se tornando
o sangue nas mãos
que mancha as paredes,
dissimula as linhas,
subverte o pensamento
e cala o sussurro
e seu eco.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Tocando à distância.
Faz um tempo que quero fazer algo do gênero, mas nunca tinha tempo e agora tenho tempo e não tenho ânimo para fazer mais nada, então decidi deixar aqui os meus álbuns favoritos - até agora.
10 - Oasis - Definitely Maybe.
Álbum de estreia da banda inglesa, Definitely Maybe é mais poético do que parece a faixa Live Forever é um soco fechado no estômago cantado de forma bem gentil e agradável. O clima que o álbum me trás é basicamente de: "não há muito o que fazer, os dados estão jogados, então vamos dançar."
9 - Chico Science & Nação Zumbi - Da lama ao Caos.
Para mim não há álbum que represente melhor a musicalidade brasileira do que "Da lama ao Caos", que para mim significa um grito de protesto: "Por que temos que importar cultura?" - há muito mais na periferia do que as pessoas tendem a acreditar e a voz lendária e quase profética de Chico Science está gritando exatamente isso. "Modernizar o passado é uma evolução musical."
7 - Bob Dylan - Blood on the Tracks.
Dylan sendo Dylan do modo mais especial em que é possível ser Dylan. "If you see her say hello" é minha preferida do Dylan uma canção encantadora sobre um homem que perdeu um amor e pede ao interlocutor se caso a vê-la para que diga "olá" por ele, mas é claro sem deixá-la perceber que ele ainda a ama.
6 - The Doors - L.A. Woman.
A volta do The Doors ao que o The Doors era originalmente (o ritmo jazzista dos primeiros álbuns) - isto é claro, com a banda muito mais madura e Jim Morrison ainda mais poético do que nunca. O disco de despedida da banda com Jim nos vocais é uma trip na estrada da vida - Atenção à faixa "L'america" que é de arrepiar a alma.
5 - The Smiths - The Queen is Dead.
O gracejo e a delicadeza desse álbum não tem comparação nesta lista, desde seus versos iniciais percebemos a originalidade da banda e uma irreverência...
4 - Jeff Buckley - Grace.
Único álbum de estúdio de Jeff Buckley em vida é nada menos que um grito de dor. Esse álbum não poderia ser melhor e a melancolia dá o tom em todas as faixas, caso não tenha ouvido esta maravilha do mundo da música corra porque está perdendo tempo, mas não espere nada além de faixas introspectivas e espectrais que podem te fazer repensar o sentido da vida.
3 - Radiohead - In rainbows.
A segunda parte da década de 2000 é algo ainda mais intimista e profundo nas faixas do Radiohead e confesso que este álbum me visitou muitas vezes enquanto estive na fossa...
2 - The Doors - Strange Days.
De poesia beat e Nietzsche até bossa nova, há tudo neste álbum que é uma espiral descente até as entranhas da existência humana - a trupe de circo na capa questiona muito mais do que apenas "o que é ser normal", mas os valores profundamente auto-destrutivos de uma sociedade doente que adora capar à si própria, a tristeza banha o álbum - principalmente nas faixas iniciais e na faixa título.
1 - Joy Division - Unknown Pleasures.
"Isto não é um conceito é um enigma." diz a contracapa do álbum, quando me deparei com ele pela primeira vez foi como um choque, a musica em si sofreu uma mudança completa de sentido em mim, uma batida boa é uma batida boa e não basta batidas boas para se fazer músicas boas - é preciso mais do que isso, muito mais e foi isso que Unknown Pleasures me provou.
Menção Honrosa:
Daughter - The Wild Youth (Ep)
Uma banda inglesa que-quase-ninguém-conhece mas faz um som que toca a alma, o disco da banda "If you leave" não entra na lista, mas é praticamente impossível deixar o Ep "The Wild Youth" de fora, há muito mais nele do que em discografias inteiras de outras bandas.
10 - Oasis - Definitely Maybe.
Álbum de estreia da banda inglesa, Definitely Maybe é mais poético do que parece a faixa Live Forever é um soco fechado no estômago cantado de forma bem gentil e agradável. O clima que o álbum me trás é basicamente de: "não há muito o que fazer, os dados estão jogados, então vamos dançar."
9 - Chico Science & Nação Zumbi - Da lama ao Caos.
Para mim não há álbum que represente melhor a musicalidade brasileira do que "Da lama ao Caos", que para mim significa um grito de protesto: "Por que temos que importar cultura?" - há muito mais na periferia do que as pessoas tendem a acreditar e a voz lendária e quase profética de Chico Science está gritando exatamente isso. "Modernizar o passado é uma evolução musical."
7 - Bob Dylan - Blood on the Tracks.
Dylan sendo Dylan do modo mais especial em que é possível ser Dylan. "If you see her say hello" é minha preferida do Dylan uma canção encantadora sobre um homem que perdeu um amor e pede ao interlocutor se caso a vê-la para que diga "olá" por ele, mas é claro sem deixá-la perceber que ele ainda a ama.
6 - The Doors - L.A. Woman.
A volta do The Doors ao que o The Doors era originalmente (o ritmo jazzista dos primeiros álbuns) - isto é claro, com a banda muito mais madura e Jim Morrison ainda mais poético do que nunca. O disco de despedida da banda com Jim nos vocais é uma trip na estrada da vida - Atenção à faixa "L'america" que é de arrepiar a alma.
5 - The Smiths - The Queen is Dead.
O gracejo e a delicadeza desse álbum não tem comparação nesta lista, desde seus versos iniciais percebemos a originalidade da banda e uma irreverência...
"Farewell
To this lands cheerless marshes
Hemmed in like a boar between arches
Her very Lowness with her head in a sling
I'm truly sorry
But it sounds like a wonderful thing"
4 - Jeff Buckley - Grace.
Único álbum de estúdio de Jeff Buckley em vida é nada menos que um grito de dor. Esse álbum não poderia ser melhor e a melancolia dá o tom em todas as faixas, caso não tenha ouvido esta maravilha do mundo da música corra porque está perdendo tempo, mas não espere nada além de faixas introspectivas e espectrais que podem te fazer repensar o sentido da vida.
3 - Radiohead - In rainbows.
A segunda parte da década de 2000 é algo ainda mais intimista e profundo nas faixas do Radiohead e confesso que este álbum me visitou muitas vezes enquanto estive na fossa...
2 - The Doors - Strange Days.
De poesia beat e Nietzsche até bossa nova, há tudo neste álbum que é uma espiral descente até as entranhas da existência humana - a trupe de circo na capa questiona muito mais do que apenas "o que é ser normal", mas os valores profundamente auto-destrutivos de uma sociedade doente que adora capar à si própria, a tristeza banha o álbum - principalmente nas faixas iniciais e na faixa título.
1 - Joy Division - Unknown Pleasures.
"Isto não é um conceito é um enigma." diz a contracapa do álbum, quando me deparei com ele pela primeira vez foi como um choque, a musica em si sofreu uma mudança completa de sentido em mim, uma batida boa é uma batida boa e não basta batidas boas para se fazer músicas boas - é preciso mais do que isso, muito mais e foi isso que Unknown Pleasures me provou.
Menção Honrosa:
Daughter - The Wild Youth (Ep)
Uma banda inglesa que-quase-ninguém-conhece mas faz um som que toca a alma, o disco da banda "If you leave" não entra na lista, mas é praticamente impossível deixar o Ep "The Wild Youth" de fora, há muito mais nele do que em discografias inteiras de outras bandas.
sábado, 17 de janeiro de 2015
Caiena
Estou pensando em fugir para a Guiana Francesa,
ficar à beira do mar em Caiena - com o céu estrelado
da noite tropical - uma desilusão de verão
mas poderei dizer à todos que foi uma fuga
somente para testar os bares mais ao norte do trópico
quem sabe lá poderei escrever uma frase de impacto
em algum muro - não em francês é claro
quero fazê-los abrirem um dicionário de português
e entenderem que a dor é poliglota e não respeita fronteiras
talvez como resposta eu até consiga que algum outro louco
me pague uma bebida e me garanta uma boa conversa
as noites em Caiena devem ser densas e sinistras
é claro não tão mais sinistras do que as noites
em qualquer outra pequena cidade do mundo
o riso fantasmagórico das mortes jamais enunciadas
sempre disparam ao vento nas cidades pequenas
nas cidades grandes ao menos podemos fingir
que não seremos esquecidos tão cedo após a morte
olhando o céu, que o mesmo céu que se vê em Caiena
percebo que o brilho da cidade está no fato de que
ninguém quer fugir para lá, todos preferem Paris
e suas noites já surradas de tão visitadas antes,
já tão impuras dessa inocência do imaginário misterioso,
mas quem sabe o que de novo pode haver em Caiena?
respiro fundo enquanto ainda olho o céu
que é o mesmo céu de Paris e penso que também a visitaria
e suas noites onde deve ser confortável cruzar as mesmas
vielas e sentar nos mesmos bares nos quais sentaram
Henry Miller ou Ernest Hemingway à 70 anos atrás.
Incoerente? Não, só não gosto de extremismos
e brincar com o novo é como encarar um perigo latente
nunca se sabe o que pode vir - o que está atrás da porta
Eu iria a Caiena descobrir o novo na solitude da floresta
e da cidade virgem de poesias em seu nome
a devorá-la como devoramos uma amante nova
experimentando seu perfume, seu gosto, suas ideias,
sua prosa - para descobrir se no fim ela é uma cidade
que também chora à noite - como todas as outras choram.
ficar à beira do mar em Caiena - com o céu estrelado
da noite tropical - uma desilusão de verão
mas poderei dizer à todos que foi uma fuga
somente para testar os bares mais ao norte do trópico
quem sabe lá poderei escrever uma frase de impacto
em algum muro - não em francês é claro
quero fazê-los abrirem um dicionário de português
e entenderem que a dor é poliglota e não respeita fronteiras
talvez como resposta eu até consiga que algum outro louco
me pague uma bebida e me garanta uma boa conversa
as noites em Caiena devem ser densas e sinistras
é claro não tão mais sinistras do que as noites
em qualquer outra pequena cidade do mundo
o riso fantasmagórico das mortes jamais enunciadas
sempre disparam ao vento nas cidades pequenas
nas cidades grandes ao menos podemos fingir
que não seremos esquecidos tão cedo após a morte
olhando o céu, que o mesmo céu que se vê em Caiena
percebo que o brilho da cidade está no fato de que
ninguém quer fugir para lá, todos preferem Paris
e suas noites já surradas de tão visitadas antes,
já tão impuras dessa inocência do imaginário misterioso,
mas quem sabe o que de novo pode haver em Caiena?
respiro fundo enquanto ainda olho o céu
que é o mesmo céu de Paris e penso que também a visitaria
e suas noites onde deve ser confortável cruzar as mesmas
vielas e sentar nos mesmos bares nos quais sentaram
Henry Miller ou Ernest Hemingway à 70 anos atrás.
Incoerente? Não, só não gosto de extremismos
e brincar com o novo é como encarar um perigo latente
nunca se sabe o que pode vir - o que está atrás da porta
Eu iria a Caiena descobrir o novo na solitude da floresta
e da cidade virgem de poesias em seu nome
a devorá-la como devoramos uma amante nova
experimentando seu perfume, seu gosto, suas ideias,
sua prosa - para descobrir se no fim ela é uma cidade
que também chora à noite - como todas as outras choram.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Visões na penumbra.
O contato com um dos últimos livros de Jack Kerouac - aqui carinhosamente "Ti Jean" - não é com certeza uma estrada fácil, neste ponto a viajem é mais turbulenta, existencial, triste e interna - eu diria que é uma viajem pessoal pelos caminhos nos quais a memória do autor já tende a vagar. Desde seu mais essencial começo o livro fatídico já é fatal, a morte permeia já suas primeiras paginas deixando um gosto amargo à boca e que não desce tão facilmente.
"Pois não é uma natureza inocente que fez os morros parecerem tristes e arrasados, são os homens e suas mentes terríveis - A ignorância, a grosseria, as frustrações malvadas e mesquinhas, os complôs, as tendências hipócritas, o arrependimento em relação às perdas, o deslumbramento com os ganhos - Atendentes, carregadores de ossos, agentes funerários, usuários de luvas, sopradores de névoa, prenunciadores de merda, mijadores, profanadores, fededores, conversores de bezerros gordos, manchas & cascas de feridas sobre a face da Terra -"
- Visões de Gerard; J. Kerouac - Página 17.
Keroauc tem ótimas reflexões que passam de uma visão budista/cristã ao pessimismo existencialista - o que trás certas recordações de outros romances ao leitor, como por exemplo "Os vagabundos iluminados". O tema central do livro a morte do irmão Gerard Duluoz, visto pela família e por todos que o cercam como um santo é propício de ótimas reflexões sobre a existência humana e todo o mistério que a cerca, os detalhes e o carinho de Jack por Gerard se tornam um peso à mais para o livro, concedendo a ele um tom intimista em determinados momentos que faz a obra parecer uma homenagem ao irmão morto.
Acredito que este seja um dos trabalhos mais profundos de Kerouac - novamente existencialmente falando e um trabalho muito maduro em relação à qualidade escrita, com momentos que alternam entre uma prosa voraz e uma poética lúcida sobre temas abstratos quase intraduzíveis. Isso talvez se dê pelo fato de ter sido escrito no período final da vida do autor - apenas seis anos antes de sua morte - quando já havia se tornado consagrado e tido a oportunidade de trabalhar e refinar sua técnica.
De todo modo este livro me chocou, tanto pela forma com que a morte é simbolizada e retratada - o irmão, a inocência que ascende aos céus por sua pureza - tanto quanto pelas reflexões "... mas eu sempre disse que o fato de que os homens existem é mais interessante do que qualquer outra coisa que possam fazer" (Kerouac, Jack - Visões de Gerard, página 111), que poderiam facilmente terem sido escritas por qualquer leitor de Sartre nos idos do anos 60. Para mim um dos mais completos romances de Kerouac, por sua sutileza e delicadeza e é válido não apenas para aqueles que tem interesse pela obra do autor - já que o livro tem potencial próprio.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Blue.
"as vezes a noite não perdoa um homem
pelos erros cometidos em dias nebulosos"
penso enquanto Joni Mitchell toca
mais triste do que na última vez em que tocou
- mais solitária e quieta, como se esquecida
de todos os sonhos da aurora de outros tempos
como se fosse eu ou você nestes dias
com o lamento de solitários anjos
que ralaram suas mãos ao cair sob pedras
e por isso se trancaram em quartos
envergonhados de sua forma
como se fosse pecado perder o controle
com esse silêncio mortal
que parece sintoma incolor de seu estado
- e a musica ainda tocando
tento escrever um retrato de minha angustia
imaginando que você não se sentiria bem
se soubesse como estou acabado
o piano é melancólico - e fere fundo
o céu é de um negro avermelhado
como se a existência fosse apenas imaginação
ou experimentação da eternidade dourada
com seu karma e tudo aquilo que volta,
um jogo de pingue-pongue que ninguém
- jamais ousou tentar vencer
e um frio sobe a espinha em direção
aos cacos quebrados da alma
como se os dias fossem intermináveis,
uma mera artimanha do eterno retorno...
- estou paranoico! Ah Joni, por que me tortura
com essa voz de quem já sabe o fim da historia?
sejamos doces antes de sermos cometas
afinal, viajamos até o fim do universo
só para ver se aguentaríamos nossos pesos
e o resultado de tudo isso ninguém sabe contar...
mas eu espero te ver abrir a porta com o mesmo sorriso
- que tinha naquele dia em que te conheci.
pelos erros cometidos em dias nebulosos"
penso enquanto Joni Mitchell toca
mais triste do que na última vez em que tocou
- mais solitária e quieta, como se esquecida
de todos os sonhos da aurora de outros tempos
como se fosse eu ou você nestes dias
com o lamento de solitários anjos
que ralaram suas mãos ao cair sob pedras
e por isso se trancaram em quartos
envergonhados de sua forma
como se fosse pecado perder o controle
com esse silêncio mortal
que parece sintoma incolor de seu estado
- e a musica ainda tocando
tento escrever um retrato de minha angustia
imaginando que você não se sentiria bem
se soubesse como estou acabado
o piano é melancólico - e fere fundo
o céu é de um negro avermelhado
como se a existência fosse apenas imaginação
ou experimentação da eternidade dourada
com seu karma e tudo aquilo que volta,
um jogo de pingue-pongue que ninguém
- jamais ousou tentar vencer
e um frio sobe a espinha em direção
aos cacos quebrados da alma
como se os dias fossem intermináveis,
uma mera artimanha do eterno retorno...
- estou paranoico! Ah Joni, por que me tortura
com essa voz de quem já sabe o fim da historia?
sejamos doces antes de sermos cometas
afinal, viajamos até o fim do universo
só para ver se aguentaríamos nossos pesos
e o resultado de tudo isso ninguém sabe contar...
mas eu espero te ver abrir a porta com o mesmo sorriso
- que tinha naquele dia em que te conheci.
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