quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Percebo que os trilhos do trem estão todos enferrujados enquanto caminho cambaleante por um terreno baldio a uns cem metros da estação, devem ser umas sete ou oito horas, o sol já se pôs mas ainda percebo uma luz vermelha no horizonte, está tudo escuro, a grama é alta, sento-me em uns ferro-velhos amontoados na beira do trilho, na estação - não tão distante assim para que a pudesse perder de vista, percebo alguns vultos, um trem passa rasgando pelo trilho, levantando vento e poeira, bebo um gole do Scotch que tenho em mãos e respiro aquele ar denso e quente. As nuvens negras no céu parecem cantar uma oração premonitória - em breve irá chover, passo a mão pela minha barba e então bebo mais um gole daquele uísque, procuro cigarros no bolso e percebo um maço quase vazio, acendo - talvez o último. Essa sensação de estar sozinho aqui observando essa agitação vazia das pessoas é como se um delta blues tocasse minha decadência como humano. Trago o cigarro lembrando da sua pressa em pegar o metro naquele dia, da forma com que bateu a porta na nossa última discussão, do seu vestido florido curto na varanda do seu apartamento e da minha mão no meio da suas pernas. Solto a fumaça, publicaram uma das minhas crônicas dia desses no jornal do bairro, um crítica ao transporte público encoberta na história de um cobrador incompetente - você vivia dizendo que eu deveria mandar alguma coisa para lá, então eu o fiz, pensei em te escrever falando sobre isso, mas já estava muito tarde e eu estava muito bêbado. Fico feliz que tenha mandado um cartão no meu aniversário - você assinou "de Buenos Aires.", fico me perguntando se ainda pensa em mim, dia desses a Clara te viu no supermercado - disse que você tinha um sorriso sincero no rosto, mas a verdade é que teu sorriso sempre foi sincero. Joguei a bituca fora, chutei o chão só para levantar areia e a ver caindo devagar, atravessei o trilho, segui por uma viela escura até a avenida principal e de lá até a estação, havia uma banca de jornais, entrei e comprei a "Folha de S.Paulo", deixei ali boa parte das moedas que tinha no bolso, coloquei o jornal e minha garrafa de uísque na sacola, fui até a estação e comprei um bilhete, me sentei em um banco esperando o trem, havia duas garotas conversando, a saia azul de uma deixava à mostra a pele branca de suas pernas, eu ri sozinho ao perceber que a "comia com os olhos" - o trem chegou e em casa eu me sentei para conversar com meu amigo escocês enquanto algum disco do Bo Diddley tocava, enquanto o uísque descia quente eu me perguntava o que faz as pessoas pensarem que é fácil dizer a deus à alguém? Fui até a varanda, a chuva já estava leve, os carros passavam na rua, uma mulher discutia com um homem em um carro estacionado, a cidade grunhia e me convidava para sua noite - resolvi ir ao nosso bar favorito. "Uma dose de tequila ouro por favor.", me sentei em uma mesa próxima à janela, as ruas restavam molhadas e tudo isso aí fora continuava não fazendo sentido algum. A única certeza da vida continuava sendo sua incerteza, paguei a conta com o cartão e caminhei algumas quadras não pensando em nada, talvez eu esteja passando muito tempo sozinho e talvez as pessoas não tenham muita ideia do que falam sobre as outras. Novamente, tudo é incerto e continua assim até o momento em que passa, na verdade o passado não conta mentiras. Respirei fundo, a noite não estava tão ruim assim. Havia cartas na caixa do correio, nenhuma delas era sua. O governador falava no noticiário enquanto eu vomitava na privada. Achei cigarros na escrivaninha e te escrevi uma carta.
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