quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sobre a produção poética [Artigo] - Pedro Venturini.

A produção poética como retrato do real parece ser uma concepção que cada dia mais se afasta da visão popular sobre este tipo de arte, percebemos também que com este afastamento vemos a poesia ser encarada como informal, desprovida da categoria de utensílio útil para a vida quotidiana - aqui, não questiono nem o fator de ser minoritária (isto sempre foi) mas sim o fato de cada vez mais ser tratada como desnecessária, tendo em vista que não teria nenhuma função em mundo que cada vez mais adota a concepção positivista de causa/efeito.
Ora, uma vez em que se afirma que a poesia não contém a relação causa/efeito, logo se percebe a ingenuidade de seu enunciador, uma vez que o efeito e causa da poesia já estão presentes na sua própria forma de ser: a poesia é causada pelo real e tem como efeito lançar-se sobre este mesmo real na intuição de transformá-lo - com um novo olhar ou uma nova concepção. Ela é causada pelo real à partir do momento em que é expressão de alguma manifestação deste real sobre a figura do poeta, é o mundo que transforma o poeta e o faz transformar o mundo, neste caso o poeta é ferramenta de linguagem, logo a causa retroalimenta o efeito e assim por diante. Indo mais além, posso dizer que é pura babaquice essa necessidade que se criou de ter uma causa/efeito para tudo, as coisas podem e devem muito bem serem causas de si próprias, sem essa necessidade de lançar-se à frente o tempo todo - mas daí já é opinião e divergência ideológica profunda e me contento em quebrar a lógica dentro dos preceitos do próprio enunciador.
Já sobre a poesia ser encarada como algo "informal" e sem grandes utilidades dentro da linguagem (criando assim uma espécie de oposição entre a poesia e a prosa) digo que isso é puro fetiche literário, a poesia é uma eterna construção e que depende necessariamente da experimentação do real para existir - não que a prosa não dependa, veja bem minha intenção aqui não é criar uma oposição entre elas, só justificar a importância das duas - a coisa com a poesia se torna ainda mais complicada à partir do momento em que ela serve como instrumento de quebra e ruptura com dogmas literários que estão em cima dela e a constituem (os quais a prosa à muito já não se vê dominada) como por exemplo a necessidade da existência de uma métrica, uma rima, estética e assim por diante - problema todo é que não há mais necessidade em permanecer presa a estas correntes e ao quebrar com elas a poesia passa a ser julgada como rebelde e já não mais necessária para a literatura, eu me pergunto, por que há tanto interesse assim na literatura em manter uma espécie de status quo? Acho que é caso para se pensar com calma...
Bom este texto é básico e tem como função/efeito (já que adoram se apegar a essa necessidade estranha) levantar algumas questões e deixar espaço aberto para que cada um possa responde-las de alguma forma, além é claro de provocar os detentores do saber moral e vigilantes da linguagem escrita e falada (os verdadeiros empata-foda da linguagem). Por fim deixo a dica de leitura: Manifestos de Claudio Willer - Editora Azougue por R$ 36,90.

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