"Pois não é uma natureza inocente que fez os morros parecerem tristes e arrasados, são os homens e suas mentes terríveis - A ignorância, a grosseria, as frustrações malvadas e mesquinhas, os complôs, as tendências hipócritas, o arrependimento em relação às perdas, o deslumbramento com os ganhos - Atendentes, carregadores de ossos, agentes funerários, usuários de luvas, sopradores de névoa, prenunciadores de merda, mijadores, profanadores, fededores, conversores de bezerros gordos, manchas & cascas de feridas sobre a face da Terra -"
- Visões de Gerard; J. Kerouac - Página 17.
Keroauc tem ótimas reflexões que passam de uma visão budista/cristã ao pessimismo existencialista - o que trás certas recordações de outros romances ao leitor, como por exemplo "Os vagabundos iluminados". O tema central do livro a morte do irmão Gerard Duluoz, visto pela família e por todos que o cercam como um santo é propício de ótimas reflexões sobre a existência humana e todo o mistério que a cerca, os detalhes e o carinho de Jack por Gerard se tornam um peso à mais para o livro, concedendo a ele um tom intimista em determinados momentos que faz a obra parecer uma homenagem ao irmão morto.
Acredito que este seja um dos trabalhos mais profundos de Kerouac - novamente existencialmente falando e um trabalho muito maduro em relação à qualidade escrita, com momentos que alternam entre uma prosa voraz e uma poética lúcida sobre temas abstratos quase intraduzíveis. Isso talvez se dê pelo fato de ter sido escrito no período final da vida do autor - apenas seis anos antes de sua morte - quando já havia se tornado consagrado e tido a oportunidade de trabalhar e refinar sua técnica.
De todo modo este livro me chocou, tanto pela forma com que a morte é simbolizada e retratada - o irmão, a inocência que ascende aos céus por sua pureza - tanto quanto pelas reflexões "... mas eu sempre disse que o fato de que os homens existem é mais interessante do que qualquer outra coisa que possam fazer" (Kerouac, Jack - Visões de Gerard, página 111), que poderiam facilmente terem sido escritas por qualquer leitor de Sartre nos idos do anos 60. Para mim um dos mais completos romances de Kerouac, por sua sutileza e delicadeza e é válido não apenas para aqueles que tem interesse pela obra do autor - já que o livro tem potencial próprio.
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