segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

22/12/2014

se está silencioso e a tarde quente
mas não deixe que isso atrapalhe,
permita-me lhe convidar para um café
entre, se sirva e sente-se ao meu lado
quero entregar minha língua
em sua boca, e dissolver
o gosto amargo do café
em seus lábios doces

estamos todos perdidos nesse mundo
e as vezes encontramos alguém
com quem queremos nos seguras
para evitar que nos percamos por aí
- de novo - afinal, vivemos perdidos
o que custa se perder em alguém?

nas curvas do seu olhar subliminar
e do meu olhar - turvo, torto
que revela internos sentimentos
os quais ainda não dei nome
mas gosto deles, gosto que fiquem

se está quente e a tarde silenciosa
deixe-me agitar teu dia
aliás, agite o meu - seja o caos
não seja estrada alguma,
me ajude a criar uma

venha, vamos pintar
colorir com as cores que quisermos
fazer do nosso jeito
assim talvez, até os dias mais parados
passem a valer a pena.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Moi et toi

suba,
em meus braços
em meus suspiros
em minha respiração
ofegante, assustada

seja,
luz do luar intenso
que no verão penetra
o coração que trêmulo
finge ser saltimbanco 
dos dias que já nos foram
tomados em um passado

venha,
e fique, sente ao meu lado
a noite é fria, mas as estrelas
já estão para aparecer por aqui
e colorir o nosso céu soturno

caos,
que transforma em vida
que muda de direção
apontando de lugar algum
para bem no meio de nosso
coração - nosso, meu e teu

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Te conhecer antes

a fria brisa de verão
e as gotas d'água
que caiam de um céu
cinza e nublado
não foram suficientes
para calar os sorrisos
de meus lábios

"gosto de dias assim"
- você me disse
e eu concordei;
uma chuva
e um só apanhador
de sonhos
teus e meus
fizeram da calmaria
de meu coração
uma agitação branda
e de cores vivas

- um dia talvez
essa poesia tenha mais
sentido, no outro
ela serve para nós,
hoje é vontade
de seus braços de novo.

domingo, 30 de novembro de 2014

O tempo é curto, mas a vida é simples.

Sabe aquela velha historia de que o tempo é curto? Talvez seja essa a coisa mais trágica da vida, porque com o tempo as pessoas se vão, os minutos se dissolvem, as memórias se esquecem e o que resta é o gosto amargo que tem um domingo à tarde na cidade de São Paulo cinza e vazia.
Confesso que a cena que permeia minha mente é a das festas de aniversário, das velhinhas sobre o bolo em uma sala escura sussurrando para serem apagadas, a cada ano que passa a gente tende a achar que não tem chances de errar, que não deveria arriscar ou se jogar de cabeça naquele amor que jamais vai funcionar, afinal: "o tempo está passando e um erro é desperdiçá-lo". Ah, essa terrível mania de se achar que não se aprende com os erros, deveríamos aprender com eles e não correr deles! E deveríamos também assumir o tesão de cada minuto, as coisas só são erradas quando não te trazem nenhum prazer em fazê-las, não deve haver medo em procrastinar uma tarefa ou deixar de fazer em virtude de fazer algo que te dê mais alegria, te beneficie, a vida é muito curta para ficarmos esperando que as coisas melhorem só amanhã. É claro que ainda podemos sofrer ou sentir alguma dor, mas por que não curtimos esses momentos também? Por que temos que temer nossos sentimentos, nossa dor, nossa angústia? O interessante seria aprendermos a lidar com isso, a administrar nossa interioridade, ficar fugindo dessa saudade que aperta o peito não leva a lugar algum.
Se nosso tempo é curto, temos que evitar as armadilhas que nós mesmos causamos, evitar que de algum modo acreditemos que a vida é amanhã e que não devemos fazer isso ou aquilo, porque "o que vão pensar de mim amanhã?" Sou daqueles que são a favor de nos entregarmos um pouco mais a cada instante, sou um "facilitador", quero simplificar as coisas, não ficar criando jogos complexos e cheios de regras malucas, aqui finalizo com um conselho que ouvi há alguns anos: "A vida é simples, nós é que complicamos".

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ainda há muitos hoje para o amanhã

então é isso?

acabam aqui os dias em que sentei-me ao vazio sob o olhar das estrelas que irradiam as noites americanas sem fim. os dias que contei com as ampulhetas do tempo invertidas em meu estômago inverídico. acabam aqui os choros do maltrapilho malabarista da avenida de nosso coração. acabam aqui as paranoias radioativas que causaram nosso câncer.

então é isso?

o esgotar daquele pouco que restava. o tiro para o alto que acabou caindo no próprio pé. a gastrite mal curada, que teima em acordar-nos nas frias manhãs de fim de outono. a teimosia desvairada das enormes conspirações covardes. a constatação de que a cerveja acabou e a tristeza não durou tanto quanto achávamos que devia.

então é isso?

é isso porque não é segredo. é isso porque é o que resta. é isso porque queremos que seja assim. é isso porque não houve se quer começo. é isso porque o fim não se pinta assim, como se fosse bonito. é isso porque é brutal. é isso porque é visceral. é isso porque estamos vivos e não sabemos quanto mais pode durar o espetáculo. é isso porque devemos arriscar, nem que seja para andar a pé do alabama à feira de santana. é isso porque o filme é em super 8 e nossos diretores favoritos já estão velhos ou mortos. é isso porque a tarde se esvazia com o sol se pondo à meio ponto no horizonte. é isso porque já estivemos loucos por tempo demais. é isso porque a vida não é doce, nem para mim nem para você.

então é isso.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Re- há -lidade

É o fim da noite
me restam algumas moedas
sobre o criado
meus pais no quarto ao lado
a lâmpada acessa
papéis amassados
livros empoeirados
alguma metafísica
que talvez um dia
me sirva para algo
Jim Morrison
cantando bêbado
ou louco de LSD
e uma janela
com um mundo lá fora
enfim, algumas poucas coisas
e o sentimento arcaico de
não entender muito bem
o que acontece
me resta minha loucura particular
e o conceito de medíocre
todos se misturando
e me vomitando
de volta a realidade.

sábado, 11 de outubro de 2014

queria dar a este poema seu nome.

o que sinto é dor. porque não se traduz de outro modo esse sentimento. dor atroz. que atrofia minha caixa torácica, corta meus nervos, consome meu coração e poluí minha mente. a noite se torna mais negra e não poderia ser mais vazia. o vazio é falta, saudade do que não tenho - e não tive. o vazio não é só da existência - que até hoje não se justifica, o vazio é claramente falta de você. não sei porque os poetas não podem mais falar de amor. quero que todos eles se fodam. sou só eu neste quarto amarrado a este sentimento, com a janela aberta e o mundo me engolindo lá fora, só eu e mais ninguém. por estes dias os sorrisos me cansam, os rostos felizes me enojam, tenho vontade de soca-los para que se emudeçam e se calem. felicidade não contagia, deprime ainda mais. por quê? porque tenho inveja de seus sorrisos gordos em rosto corados e verdadeiramente satisfeitos - veja bem, não digo estar insatisfeito com tudo, não poderia admitir isto. mas a este ponto o quarto já se tornou nebuloso e não sei o que diabos faço ouvindo estas músicas, que são só mais uma maldita ferida aberta. a cale-se pedro, cale-se, você não tem razão no que fala, não tem razão no que pensa, de certo é só mais um homem louco, e como poderia ser o contrário? cada um e sua loucura particular. hoje lhe convido a dançar em minhas mágoas e você me levará para onde amanhã? garota, isto bem que poderia ser uma carta de confissão cuja a qual o destinatário jamais foi tão correto. lembro de ter sonhado contigo esta noite. não lembro exatamente o que. só sei que apenas me restava seu rosto em um corredor vazio. e o que me resta de ti agora? só a espera de que venha e me salve desse afogamento repentino. penso em você e logo me lembro que os poetas estão errados, o amor não cabe em palavras.



Nota: roubei aqui, a inovadora tetralogia das minúsculas de valter hugo mae.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Dia primeiro

Amanhã é dia primeiro não é?
Estranho ver os dias passando assim
sem nenhum escrúpulo de parar e
me dizer algo, talvez contar um segredo,
uma coisa que eu ainda não saiba sobre a vida,
assunto eu sei que eles - os dias teriam
mas eles preferem me deixar só
e só, aos poucos eu vou ficando amargo
amargo e difícil de engolir
não deixo gosto, e se o deixo,
é um gosto bem bobo
percebo que estou parado
embaixo d'agua, mergulhado em confusões
e conspirações que eu mesmo crio
em minha mente,
em sonhos eu corro, fujo, me debato,
choro, riu, sou criança, sou alguma coisa,
e não só um vazio cinza e tedioso
Amanhã é dia primeiro
e eu ainda não entendi
porque esse mês acabou.

sábado, 20 de setembro de 2014

You.

As a flower
born
in the midle
of a tear
you raise
in my heart
when I think
nothing can be
alive
in the solitude 
of my life.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Artigo -você.

Queria ser um bom poeta,
queria saber como usar as palavras,
e escrever algo que expressasse sentimentos profundos,
queria mesmo saber brincar de ser romantico,
e ter aquele olhar, aquele de alguém que sabe bem o que fala,
vai ver eu queria ter confiança e versos certeiros
para poder dizer que quero você de uma forma
que não pareça que entreguei o jogo,
que não pareça que quero apenas ir direto ao ponto,
mas que eu possa dizer e signifique tanto quanto
- aqueles momentos em que olhares se cruzam
e não querem mais se perder por aí,
aquele momento em que consciências entram em comunhão
e o mundo já parece não importar tanto assim.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A janela

Estou sentado em frente a janela, ela está aberta, quero que a chuva entre mesmo, quero que ela molhe tudo por aqui, talvez eu deva causar um alagamento em mim mesmo. Além da chuva também entraram os clarões dos raios, estava olhando para fora, para o céu, naquele momento em que os raios caem e as nuvens se tornam todas brancas mesmo em meio a escuridão da noite, - lembrei que queria um café, fiz um bom copo - estou ouvindo Led Zeppelin - em breve parto para Jeff Buckley...

Não consigo escrever este texto, estou com a ferramenta do blogger abertar há duas horas e trinta e sete minutos, não saem palavras de mim, só sentimentos que entram em conflito, alguns deles se suicidam porque têm medo de soarem ridículos, mas a grande maioria em pé de guerra só diz baixinho "Chega Pedro, vamos dormir".

sábado, 23 de agosto de 2014

O contrário da morte não é a vida, é o amor.

Lembro-me de certa vez em uma festa para São Pedro, estávamos nos limites da cidade, em um campo no qual ao longe podíamos ver as luzes das casas e dos carros na metrópole que se estendia para além de seus limites, naquele pequeno terreno em meio à árvores silenciosas, árvores que projetavam sombras negras e assustadoras para bem próximo de uma fogueira de dois ou três metros de altura, ali enquanto olhava por entre as chamas da fogueira para a cidade lá no fundo, enquanto percebia o oxigênio sendo queimado e desaparecendo em ondas, com os estalos da madeira se destruindo, minha consciência se depositou na vida, uma tristeza bem parecida com esta que sinto agora havia se abatido sobre mim.
Eu estava me sentindo sozinho, mas havia pessoas ao meu lado, pessoas rindo, pessoas observando os fogos de artifício explodirem no céu, pessoas contando historias, pessoas se olhando com confiança e empatia, havia um clima de felicidade, mas eu me senti deslocado, não porque eu tivesse algum problema com essas pessoas - como poderia, são eles parte de minha família - que falavam sobre tempos anteriores com tamanho vigor, e olhavam umas as outras sorrindo em correspondência, não, não por isso. Havia um sentimento em mim, na verdade um conflito, é difícil descrever algo assim, talvez seja culpa da minha limitada capacidade humana de abstração - retomei o medo, e como não senti-lo no ponto em que minha consciência estava julgando sua própria existência. A existência precede a essência, diria Sartre, e a verdadeira angustia do homem não está nos conflitos os quais encontra no mundo, mas justamente por estar consciente de sua finitude; o medo da morte, ele sempre vai estar ali, uma nuvem negra que faz com que nossos planos tornem-se tão frágeis como se fossem feitos de fumaça, a morte os rasga como se fossem fina seda. Olhando para aquela fogueira eu não estava com minha consciência voltada para minha morte, eu estava justamente voltando-a para a limitação da vida, isto é, há uma diferença entre ambas as coisas, a morte nada mais é que um ato, o derradeiro ato, que projeta o fim de tudo aquilo que um dia poderá ser feito, e é aí que ambas as coisas se encontram, a limitação da vida diz respeito a compreender que seu tempo é curto; meu tempo é curto para não admitir por exemplo que você também permeava minha consciência naquele momento. Naquela época eu já estava ciente de que a vida como este fator rotineiro ou como os grandes e almejados sonhos não são assim de maneira tão clara a oposição da morte, aqui devo citar Roberto Freire: "O contrário da morte não é a vida, é o amor". E desde que minha vida se tornou essa complicação toda, desde que percebi minha finitude como ser e com isto surgiram problemas existenciais - os quais também trouxeram imensas soluções cotidianas - desde esse ponto, eu só pude me sentir tão vivo - como havia me sentido outrora, na minha quente e esperançosa infância da inocência - quando soube que estava te amando e que de alguma forma eu imaginava que você me amasse. Eu via a brasa queimar, minhas mãos estavam geladas, eu me aproximei da fogueira e percebi que já não me sentia assim - eu já não me sentia tão vivo.
Devido aos fatos, devido a como toda essa loucura - sim é realmente um tempo repleto de fatos os quais hoje me parecem desconexos e pouco prováveis de conter alguma razão, seja pela forma com que se deram, seja pela forma com que eu queria que tivessem ocorrido - por muito tempo eu preferi tentar dar cabo de qualquer coisa que sentisse por você - entrei em um complexo processo de negação; neguei você; neguei lembranças ou coisas que me faziam lembrar de você; neguei até mesmo sua existência. Mas a negação não fez com que você saísse dos meus sonhos - nem ela, nem outros amores, como você mesma disse "não se cura um amor com outro" - neste ponto, em meados de julho, eu já havia desistido de lutar, mas ainda havia - há - um estranho "oco" dentro de mim, as vezes me pergunto quando este oco poderá se fechar, em dias que estou esperançoso eu digo que isso vai passar quando naturalmente eu te esquecer, e depois disso vai haver um tempo em que não me perguntarei certas coisas, então do nada vai surgir alguém e ocupar este espaço, e há dias como hoje, dias em que eu me sinto só e frágil, o problema de hoje é que não há festa, fogueira, nem as luzes da cidade, há apenas eu e meu quarto, em uma semana em que minha confiança em mim mesmo - e em algumas pessoas - foi reduzida a zero, em uma semana em que tive problemas e me senti estranho o suficiente para perceber que não tenho ninguém para contar estes problemas - ao menos não alguém que me entendesse da forma que você poderia entender - sei lá, mas não quero te aporrinhar com estas coisas, te mandando uma mensagem em plena madrugada para dizer que estou mal e inventar uma desculpa qualquer para não admitir que estou mal também porque me falta você aqui, não quero te aborrecer porque você já tem seus problemas, e não precisa de um quase estranho - afinal, já tem quanto tempo que não te vejo? Um ano? - trazendo mais problemas, em uma semana como essa, eu já não sei bem quando esse vazio vai passar.
A gente muda, o tempo passa, há sempre uma nova vida para acontecer a cada instante, há sempre um novo sorriso no metrô, há sempre um novo céu azul pela manhã, há sempre um novo domingo com a família, há sempre uma nova noite perdido nas ruas da cidade com os amigos, há sempre um novo discurso que faço e há lembranças de você hoje - pode haver para sempre, não me importa - só não quero me sentir tão sozinho, isto está custando muito do que ainda me sobra - repare, não disse que te quero, nem que não quero, só estou aberto as possibilidades, só estou aberto à mim mesmo e enquanto as coisas não acontecem fico aqui, ouvindo estas musicas eletrônicas depressivas enquanto tomo o trem de volta para casa e vejo os prédios do centro da cidade se esvaecendo.

Desculpe-me escrever sobre isso...



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Anjos Caídos.

Eu não lembro exatamente como, mas não tem lá muito tempo eu conhecia a obra literária de Charles Bukowski, é um espanto se dar de cara com um poeta tão visceral, sua obra é como um retrato de tudo aquilo que há à margem, fora das capas de revistas e dos programas de televisão. Sua obra não reflete sonhos, mas também não reflete a desesperança, poderíamos dizer que ela é apenas um periscópio da realidade, um retrato do mundo antes de passar maquiagem, um mundo de cara lavada.
Dizem por aí que só é possível se escrever sobre aquilo que se vive, eu não posso atestar essa teoria, mas com certeza Bukowski - ou simplesmente Buk, como preferir - a colocou à toda prova. Prostitutas, bares, corridas de cavalo, tudo isso é cenário de uma obra que é como uma ferida exposta, ainda não cicatrizada, é como a cena de um crime ainda não violada, na qual as digitais do autor estão ali e realmente estão, Buk viveu boa parte do que escreveu e até em livros como Pulp em que ele se afasta de seu alter ego Henry Chinaski podemos claramente ver suas as características pessoais ali depositadas; os personagens não remetem simplesmente a estas características, eles a vivem, como se essencialmente fossem o pressuposto ideológico de seu viver.
Mas Bukowski não escreve apenas sobre o seu viver, mas sim - como todo bom escritor - age como um fotógrafo, que por sua vez têm poderes especiais: é capaz de captar a visão de mundo daqueles que o cercam. O que pensam as prostitutas? Será que alguém que não viva com elas poderá responder? Não seria preciso estar a margem da sociedade para perceber como tudo funciona fora dessa grande bolha na qual a classe média prefere se enfiar? Não só a classe média, mas sim todos aqueles que acreditam no ideal de conforto e recompensa material que nos é pregado, conseguimos enxergar o que há para além das sacolas de papelão nas quais nosso fast-food vêm dentro? Por que acreditamos que há pessoas que são pontos sem nó? Por simplesmente não se encaixarem dentro daquilo que enxergamos como padrão de vida? Padrão, tá aí uma palavra que me incomoda muito...
Vamos voltar ao velho Bukowski e sua mania de se firmar um outsider em um mundo em que todos sentem orgulho de sua vaidade decadente, em um mundo em que aqueles que são julgados anjos caídos são muito mais santificados do que aqueles que vomitam em nome da moral e dos bons costumes. Vamos voltar ao Buk, pois lá há muito mais da realidade do que todos gostariam de admitir. Vamos voltar para lá, onde a realidade está nua de suas mentiras!

domingo, 3 de agosto de 2014

Eu te amo.

Eu cantei o mantra dos indianos com mendigos em ruas irregulares
e recitei com a voz inconsistente seu nome para a lua,
para o caos e todos os pedestres que quisessem ouvir
enquanto a noite nascia ardente sobre o inverno

Eu caí em praças nevoadas em plena madrugada
olhando as estrelas que com faíscas explodiam sob minha cabeça
e entre fagulhas e vertigens percebi sua imagem entorpecendo minha mente
me deixando completamente obscuro sobre o sentido da vida
e todas as dores mortais que cercam os homens

Estive me arrastando por meses adentro
de anos que pareciam intermináveis
e quando a sede de seus lábios recaiu sobre minha alma
tive alucinações em que imaginei tocar sua pele
enquanto mantinha minha atenção no som de sua voz

Te vi nas ruas do centro da cidade
quando a noite reinava incrédula de meu amor,
me perdi por entre a multidão nos vagões dos trens
e te encontrei nas melodias que tocavam,
nas vozes roucas das canções que tanto me lembravam de você

E em domingos mortais nos quais o sol queimava o asfalto
fazendo surgir no meio da metrópole um vasto deserto
senti meu coração pulsar em um ritmo desolado
enquanto minha memória rompia a séria trégua
que havia selado meses antes com meus sentimentos

Em conversas binárias na madrugada
na escuridão plena de meu quarto
o impulso forte partindo de minhas artérias
selou com palavras a inquietação de outrora
"Eu te amo".

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Para Jorge.

Amigo obrigado,
por todas as palavras
bem escritas,
lê-las foi como ver um retrato
recortado de um álbum
de fotografias maior,
desses que deixamos
empoeirados e acinzentados
na estante,
e só ganham vida quando olhamos
foto por foto,
é isto que você fez,
uma foto,
colorida e pulsante,
viva e intensa,
delicada e chocante,
forte e com gosto amargo
e que termina com as vibrações
da maré atingindo a praia
em uma noite de
réveillon fria e densa
onde rostos tingidos
de sentimentos desconhecidos
que por alguns instantes
passam à nos pertencer
nos encaram e se tornam
abertos, sem segredos
pois são agora personagens
de um livro
que daria um baita filme
mas não desses clichês hollywoodianos
acho que está mais para algo francês
ou britânico,
graças ao senso de humor
e o potencial para ser um clássico.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dos conflitos entre a natureza e a razão.



 
"Mas o que sabe um cão, em sua consciência, sobre a loucura?"

Certamente cheguei a Jack London (1876-1916) por pura influência literária, citações ao seu nome não cessam em qualquer literatura contemporânea robusta, li inicialmente algum trecho curto sobre seu período como viajante em textos sobre autores que foram precedentes à Kerouac (Jean-Louis/Jack) no quesito de andarilhos literários, assim como a "Nota sobre a vida e obra de London"¹ de Caninos Brancos viria a citar: "Suas experiências como andarilho e vagabundo foram relatadas em A Estrada (1907), o precursor das obras de John dos Passos e Jack Kerouac". Mas não foi apenas a leitura de textos que tratavam de sua influência que me projetou à sua obra, mas sim ao me ver de cara com um de seus livros e ler rapidamente a contra-capa, este livro era Caninos Brancos (1906) e a proposta parecia interessante, um lobo selvagem que se vê sendo domesticado. De relance pode parecer um chavão, mas algo me fez não esperar nenhum cachorro falante, mas sim, algo mais abstrato no que se trata da visão de mundo de um animal e sua relação com os seres humanos.
O livro se inicia furioso, te joga na situação de uma maneira não esperada, o narrador em terceira pessoa não entrega o jogo, mesmo sendo onisciente, temos espaço para imaginar o desenrolar das cenas e isso se torna muito mais fácil com a grande capacidade descritiva de London, não que o nível de detalhes seja impressionante, simplesmente cabem na medida certa, temos a chance de ver as cenas com a tensão que o autor deseja sem que se percam totalmente no horizonte da imaginação e da auto-conclusão.
O início furioso do livro se propaga em uma calmaria e uma desaceleração ainda nos primeiros atos, a historia é brandamente contada e percorre todos os espaços possíveis da vida do jovem lobo Caninos Brancos, mostrando o desenvolvimento animal (por vezes bestial) daquele ser que está se deparando com o conflito entre o que a natureza produz e as leis civilizadoras do homem, podemos sentir o embate entre seus instintos e aquilo que é chamado de moral por nós; e é aí que está a grande cartada do livro o lobo selvagem que está sendo domesticado simplesmente não consegue se adaptar ao meio humano com tanta facilidade, ou melhor, da forma humana que esperamos, ele ainda é um animal, ainda trás em si a essência furiosa da natureza, o "barro" do qual foi feito não é fácil de moldar, ainda há o lado selvagem. Neste ponto London nos leva a pensar na forma com que agimos com animais dos quais estamos acostumados a ver domesticados, exigindo muitas vezes que eles tenham atitudes que não os pertencem, pois são atitudes humanas incompreensíveis e intangíveis ao comportamento de um cão, estamos querendo assim que os animais se apropriem de nossa consciência e dos nossos processos cognitivos. Vale lembrar que London escreveu e publicou esta obra bem antes dos estudos de Ivan Pavlov² sobre os animais, sendo assim toda fonte para a obra seria sua própria observação do comportamento de diversas espécies durante os períodos de sua vida que passou em contato com a natureza selvagem.
Concluo com uma forte recomendação a leitura do livro, acredito ser desses títulos obrigatórios a todos que se interessem fortemente por literatura e até mesmo para iniciantes, salvo que a narrativa de London é clara e sem sombra de dúvidas incrível, para quem estiver interessado o livro se encontra disponível no recente projeto da Penguin Books em parceria com a Companhia das Letras, fica a dica de em primeiro momento evitar a introdução de Daniel Galera, que claramente contêm trechos "do que está por vir" (os famosos spoilers), mas rende uma boa reflexão posterior; London certamente é um daqueles escritores que merecem um espaço especial na estante e no coração, sua vasta obra inclui mais de cinquenta livros (poucos traduzidos e editados para o Brasil) que esperam para serem desbravados e redescobertos pelas novas gerações de leitores.



¹ Nota por Andrew Sinclair na edição da Penguim Companhia.
² Ivan Pavlov fisiólogo russo que com suas observações e estudos sobre o comportamento animal viria a influenciar a psicologia behaviorista.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Procura-se um amor

Procuro meu amor no canto do coração
na mais singela demonstração de afeto
no denso brilho negro da madrugada
Procuro meu amor em uma lista telefonica
onde todos os números só chamam em vão
talvez meu amor fosse aquela garota do metrô
que eu deixei de dizer "oi"
ou aquela meiga loirinha com uma franja 
- que encontrei no caminho da faculdade
e nem me atrevi em pedir o número do celular
talvez meu amor já tenha me deixado
mas eu não deixei de procurar por ele
e se o encontrar
espero que eu também seja seu amor

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O eterno retorno.

A privação de nossos desejos por uma moral quase criminosa, é exatamente isso que podemos ver no horizonte, podemos claramente enxergar o peso que tem aquilo que subjetivamente acreditamos ser sensato e ser correto, pois através de um modelo social somos praticamente condicionados (isto é, antes do despertar da consciência) a acreditar que a forma correta de justificar nossa existência é seguindo este modelo, e todos aqueles que se encontrem fora dele são vistos como marginalizados, isto em uma sociedade em que o valor social se dá através de o quão mais bem adaptado você estiver a este meio e não através do peso de seus atos.
A obra de Nietzsche é um despertar, por toda ela, ele (Nietzsche) se mostra um voraz inimigo da moral vigente e há um ponto em específico que me toca bastante "O eterno retorno".
Basicamente o ponto é; se sua vida se repetisse por toda a eternidade, você estaria vivendo como desejaria viver? Cada momento de prazer que você preferiu trocar por uma árdua e desgastante tarefa na qual acredita que a recompensa irá vir sempre em um amanhã que nunca chega, teria sido um momento jogado fora para todo o sempre, isso faria com que buscássemos não um constante prazer, mas nós reveríamos cada ato em busca daquilo que realmente desejamos, não projetando isso sempre em responsabilidades, muito menos em um futuro distante, já que o hoje é mais importante que o amanhã; Pois é nele que se projeta o futuro e além, se projeta a eternidade, então seu presente não pode ser um fardo, é claro que isso não anula seus projetos futuros, seus planos de vida, mas sim faz com que busque unicamente aquilo que realmente deseja, não se deixando privar por anseios sociais que não lhe pertencem. Precisamos projetar nossa vida realmente na direção que desejamos, e isso só se dá com uma mudança de consciência em um hoje.
Fugir ao modelo social não se torna desgastante, desgastante seria estar atrelado a ele pelo restante da vida, vivendo não o que se acredita, mas sim da forma que seria razoável aos olhos de uma sociedade cravada em uma moral, que vai além de ser civilizadora (se fosse apenas civilizadora, não causaria mal algum), mas é uma moral que condena o homem, sua individualidade, sua liberdade e seus direito a escolhas.

Confira:
Artigo sobre O eterno retorno.

Cena do filme "Quando Nietzsche chorou".





domingo, 20 de julho de 2014

Projeções de um inverno qualquer.

Está frio neste sábado a noite, a cidade de São Paulo se cala fora de minha janela, seus carros cruzando as avenidas da solidão em direção a qualquer lugar parecem ter me dado o minuto de silêncio o qual necessitava. Não estou distante de mim mesmo nos últimos dias, tive a aproximação que necessitava para que o desalento de meu coração se cessasse e todas perturbações da mente por fim como os carros na rodovia respeitassem meu eu.
Me perguntava como se estivesse diante do espelho em uma manhã fria, ou diante de um tribunal que me acusava de injúria ao meu próprio ser; "Quem sou eu?"
Talvez de todas aquelas perturbações internas esta fosse a que mais gritava forte, mais gemia escarnando o que me restava de sanidade, mais me botava de joelhos preso em uma camisa de força; "Quem sou eu?"
Costumamos fazer perguntas todos os dias, a cada minuto, mas por que então, esta pergunta parece tão difícil de ser respondida? É claro, podemos a responder de maneira simples "Eu sou, quem sou" ou "Eu sou estudante...", "Eu sou um jovem de...", mas seria esta uma resposta apropriada? Não seria necessário um pouco mais de... digamos, existencialismo? Ao decorrer de tais pensamentos, percebi um pedaço vazio, um bloco de existência faltante, eu precisava de respostas, e somente pude as encontrar em mim.
Tais respostas não surgiram assim, facilmente, precisei de tempo e de perguntas. O mundo enlouquece na ausência delas, ele cai implorando para que sejam feitas, para que o pensamento prossiga na sua tentativa frustrada de justificar sua essência, mas por que mesmo diante desse esforço estratosférico do mundo alguns ainda escolhem viver de maneira tão automática? E por que eu decidi romper essa barreira?
Certamente não sou digno de dar respostas pelos outros, mas quanto a falar por mim mesmo, disto sou capaz, o processo de não me calar em relação aos meus questionamentos foi longo (e certamente é algo contínuo) até chegar a este ponto de "lucidez" (que está distante de ser uma completa lucidez existencial) muitas perguntas precisaram ser feitas "por que o mundo é feito de tamanho sofrimento?", "onde está tal sofrimento?", "por que necessitamos passar por ele?" e assim percebi que eu questionava o próprio sentido da vida, e com tais questionamentos, rompi sozinho e sem querer a barreira da consciência de estar vivo. O sentido da vida é sempre almejado pelo ser humano, mas a única resposta que poderemos ter é em nós mesmos e justificar sua existência é tão complexo quanto entender o motivo dela. São perguntas que diariamente vem a tona, surgem como fogo e a tristeza certamente é um gatilho fatal para que tais perguntas despontem na vida de alguém. A busca existencial é como parte de uma busca para preencher o vazio e só com algumas respostas a sensação de insuficiência se vê sanada, mesmo que tais respostas não representem nem uma pequena parcela das perguntas existenciais que a vida tem a oferecer, mas certamente representam o alívio de um grande peso. Unicamente vejo minhas respostas apontando na direção a da liberdade, a do peso de meus atos, que tem como consequência o sentido de toda a minha existência, o sentido para mim está no próprio ato de existir, no desdobramento do que faço, cito o reflexo, pois somos isso, apenas o reflexo que se projeta no mundo com a intenção de transforma-lo, para onde, está já é a justificativa para o sentido. Se projetar nossos atos dá sentido a existência, certamente como projetaremos tais atos justificam a existência. Questões como "Por que faço isso?", "Por que ajo de tal maneira?", "Por que penso assim e não de outra forma?" são claramente as minhas tentativas de justificar por que eu creio que devo como ser deixar minha marca, preciso não apenas justificar minha existência, mas também acreditar que o que estou fazendo é bom o suficiente e merecedor de ser uma marca, uma mancha, uma pincelada a mais na grande pintura da historia da humanidade, preciso dizer que o que estou fazendo não é em vão.
Com a conclusão de algumas respostas e questionamentos que tenho levantado ao longo de mais de um ano, enfim, chego as minhas próprias "projeções" de por que existo (este é um "por que" duplo, me diz o sentido da existência ao mesmo tempo em que a justifica).
Estou aqui, em meu quarto já na madrugada de domingo, pensando que tais "projeções" feitas neste inverno serão válidas provavelmente por toda uma vida, toda uma existência, por todo um "porém", por todo um grande "por quê?". Então resolvi criar este espaço por um acaso, precisava de um local onde colocar minhas ideias (e isso inclui textos além de poemas) e o local onde publico atualmente se resume a um espaço altamente poético, já aqui é um lar de ideias, sejam elas em versos ou não, podem ser ideias fotográficas, ideias de papel, ideias digitais e super modernas, mas certamente serão ideias que constantemente mudarão, pois sou um ser em eterna renovação, e seria burrice dizer que jamais mudaria de ideia sobre algo; Certa vez um grande amigo me disse "O homem só é quando morre... As coisas são e os homens existem", então respondendo a minha pergunta inicial: Certamente eu não sou, apenas busco justificar minha existência da melhor forma que posso.