terça-feira, 12 de agosto de 2014

Anjos Caídos.

Eu não lembro exatamente como, mas não tem lá muito tempo eu conhecia a obra literária de Charles Bukowski, é um espanto se dar de cara com um poeta tão visceral, sua obra é como um retrato de tudo aquilo que há à margem, fora das capas de revistas e dos programas de televisão. Sua obra não reflete sonhos, mas também não reflete a desesperança, poderíamos dizer que ela é apenas um periscópio da realidade, um retrato do mundo antes de passar maquiagem, um mundo de cara lavada.
Dizem por aí que só é possível se escrever sobre aquilo que se vive, eu não posso atestar essa teoria, mas com certeza Bukowski - ou simplesmente Buk, como preferir - a colocou à toda prova. Prostitutas, bares, corridas de cavalo, tudo isso é cenário de uma obra que é como uma ferida exposta, ainda não cicatrizada, é como a cena de um crime ainda não violada, na qual as digitais do autor estão ali e realmente estão, Buk viveu boa parte do que escreveu e até em livros como Pulp em que ele se afasta de seu alter ego Henry Chinaski podemos claramente ver suas as características pessoais ali depositadas; os personagens não remetem simplesmente a estas características, eles a vivem, como se essencialmente fossem o pressuposto ideológico de seu viver.
Mas Bukowski não escreve apenas sobre o seu viver, mas sim - como todo bom escritor - age como um fotógrafo, que por sua vez têm poderes especiais: é capaz de captar a visão de mundo daqueles que o cercam. O que pensam as prostitutas? Será que alguém que não viva com elas poderá responder? Não seria preciso estar a margem da sociedade para perceber como tudo funciona fora dessa grande bolha na qual a classe média prefere se enfiar? Não só a classe média, mas sim todos aqueles que acreditam no ideal de conforto e recompensa material que nos é pregado, conseguimos enxergar o que há para além das sacolas de papelão nas quais nosso fast-food vêm dentro? Por que acreditamos que há pessoas que são pontos sem nó? Por simplesmente não se encaixarem dentro daquilo que enxergamos como padrão de vida? Padrão, tá aí uma palavra que me incomoda muito...
Vamos voltar ao velho Bukowski e sua mania de se firmar um outsider em um mundo em que todos sentem orgulho de sua vaidade decadente, em um mundo em que aqueles que são julgados anjos caídos são muito mais santificados do que aqueles que vomitam em nome da moral e dos bons costumes. Vamos voltar ao Buk, pois lá há muito mais da realidade do que todos gostariam de admitir. Vamos voltar para lá, onde a realidade está nua de suas mentiras!

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