Eu estava me sentindo sozinho, mas havia pessoas ao meu lado, pessoas rindo, pessoas observando os fogos de artifício explodirem no céu, pessoas contando historias, pessoas se olhando com confiança e empatia, havia um clima de felicidade, mas eu me senti deslocado, não porque eu tivesse algum problema com essas pessoas - como poderia, são eles parte de minha família - que falavam sobre tempos anteriores com tamanho vigor, e olhavam umas as outras sorrindo em correspondência, não, não por isso. Havia um sentimento em mim, na verdade um conflito, é difícil descrever algo assim, talvez seja culpa da minha limitada capacidade humana de abstração - retomei o medo, e como não senti-lo no ponto em que minha consciência estava julgando sua própria existência. A existência precede a essência, diria Sartre, e a verdadeira angustia do homem não está nos conflitos os quais encontra no mundo, mas justamente por estar consciente de sua finitude; o medo da morte, ele sempre vai estar ali, uma nuvem negra que faz com que nossos planos tornem-se tão frágeis como se fossem feitos de fumaça, a morte os rasga como se fossem fina seda. Olhando para aquela fogueira eu não estava com minha consciência voltada para minha morte, eu estava justamente voltando-a para a limitação da vida, isto é, há uma diferença entre ambas as coisas, a morte nada mais é que um ato, o derradeiro ato, que projeta o fim de tudo aquilo que um dia poderá ser feito, e é aí que ambas as coisas se encontram, a limitação da vida diz respeito a compreender que seu tempo é curto; meu tempo é curto para não admitir por exemplo que você também permeava minha consciência naquele momento. Naquela época eu já estava ciente de que a vida como este fator rotineiro ou como os grandes e almejados sonhos não são assim de maneira tão clara a oposição da morte, aqui devo citar Roberto Freire: "O contrário da morte não é a vida, é o amor". E desde que minha vida se tornou essa complicação toda, desde que percebi minha finitude como ser e com isto surgiram problemas existenciais - os quais também trouxeram imensas soluções cotidianas - desde esse ponto, eu só pude me sentir tão vivo - como havia me sentido outrora, na minha quente e esperançosa infância da inocência - quando soube que estava te amando e que de alguma forma eu imaginava que você me amasse. Eu via a brasa queimar, minhas mãos estavam geladas, eu me aproximei da fogueira e percebi que já não me sentia assim - eu já não me sentia tão vivo.
Devido aos fatos, devido a como toda essa loucura - sim é realmente um tempo repleto de fatos os quais hoje me parecem desconexos e pouco prováveis de conter alguma razão, seja pela forma com que se deram, seja pela forma com que eu queria que tivessem ocorrido - por muito tempo eu preferi tentar dar cabo de qualquer coisa que sentisse por você - entrei em um complexo processo de negação; neguei você; neguei lembranças ou coisas que me faziam lembrar de você; neguei até mesmo sua existência. Mas a negação não fez com que você saísse dos meus sonhos - nem ela, nem outros amores, como você mesma disse "não se cura um amor com outro" - neste ponto, em meados de julho, eu já havia desistido de lutar, mas ainda havia - há - um estranho "oco" dentro de mim, as vezes me pergunto quando este oco poderá se fechar, em dias que estou esperançoso eu digo que isso vai passar quando naturalmente eu te esquecer, e depois disso vai haver um tempo em que não me perguntarei certas coisas, então do nada vai surgir alguém e ocupar este espaço, e há dias como hoje, dias em que eu me sinto só e frágil, o problema de hoje é que não há festa, fogueira, nem as luzes da cidade, há apenas eu e meu quarto, em uma semana em que minha confiança em mim mesmo - e em algumas pessoas - foi reduzida a zero, em uma semana em que tive problemas e me senti estranho o suficiente para perceber que não tenho ninguém para contar estes problemas - ao menos não alguém que me entendesse da forma que você poderia entender - sei lá, mas não quero te aporrinhar com estas coisas, te mandando uma mensagem em plena madrugada para dizer que estou mal e inventar uma desculpa qualquer para não admitir que estou mal também porque me falta você aqui, não quero te aborrecer porque você já tem seus problemas, e não precisa de um quase estranho - afinal, já tem quanto tempo que não te vejo? Um ano? - trazendo mais problemas, em uma semana como essa, eu já não sei bem quando esse vazio vai passar.
A gente muda, o tempo passa, há sempre uma nova vida para acontecer a cada instante, há sempre um novo sorriso no metrô, há sempre um novo céu azul pela manhã, há sempre um novo domingo com a família, há sempre uma nova noite perdido nas ruas da cidade com os amigos, há sempre um novo discurso que faço e há lembranças de você hoje - pode haver para sempre, não me importa - só não quero me sentir tão sozinho, isto está custando muito do que ainda me sobra - repare, não disse que te quero, nem que não quero, só estou aberto as possibilidades, só estou aberto à mim mesmo e enquanto as coisas não acontecem fico aqui, ouvindo estas musicas eletrônicas depressivas enquanto tomo o trem de volta para casa e vejo os prédios do centro da cidade se esvaecendo.
Desculpe-me escrever sobre isso...
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