domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sr.Chinaski - Venturini

Não tente Henry,
não há nada lá
pra gente como nós:
os fracos, os esquecidos...
mas duvido que algum
deles aguente beber
tanta porcaria barata
por tanto tempo assim,
duvido que algum deles
aguente passar tanta
merda assim quanto
a gente tem aguentado
esses anos todos,
aqui nesse bairro sujo,
nessas vielas não metafóricas
com essa pobreza que
desdenha dos nossos sonhos
e chega a nos fazer passar fome,
eu duvido que algum deles
aguente acordar em plena
madrugada e perceber que sua
existência não significa muito.
Não tente Henry,
é melhor que sejamos os
vagabundos e os imorais
se ser vagabundo e imoral
é não ter medo de reconhecer
que o mundo está feito
uma carruagem sem cocheiro
indo em direção à um penhasco
e nós não queremos fazer
parte disso, não é Henry?
Não somos nós que iremos
apertar o botão que dispara
a bomba atômica! Não seremos
nós a abrir o bueiro onde estão
vivendo todos esses ratos
que irão dominar o mundo
com seu plano civilizatório caótico...
Não, Henry... a gente só vai
ficar aqui bebendo mais um pouco,
fumando e vendo as estrelas,
a gente prefere não tentar
ser parte desse jogo imobiliário
onde alguém sempre tem que pagar
pro outro deixá-lo em paz.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sobre a produção poética [Artigo] - Pedro Venturini.

A produção poética como retrato do real parece ser uma concepção que cada dia mais se afasta da visão popular sobre este tipo de arte, percebemos também que com este afastamento vemos a poesia ser encarada como informal, desprovida da categoria de utensílio útil para a vida quotidiana - aqui, não questiono nem o fator de ser minoritária (isto sempre foi) mas sim o fato de cada vez mais ser tratada como desnecessária, tendo em vista que não teria nenhuma função em mundo que cada vez mais adota a concepção positivista de causa/efeito.
Ora, uma vez em que se afirma que a poesia não contém a relação causa/efeito, logo se percebe a ingenuidade de seu enunciador, uma vez que o efeito e causa da poesia já estão presentes na sua própria forma de ser: a poesia é causada pelo real e tem como efeito lançar-se sobre este mesmo real na intuição de transformá-lo - com um novo olhar ou uma nova concepção. Ela é causada pelo real à partir do momento em que é expressão de alguma manifestação deste real sobre a figura do poeta, é o mundo que transforma o poeta e o faz transformar o mundo, neste caso o poeta é ferramenta de linguagem, logo a causa retroalimenta o efeito e assim por diante. Indo mais além, posso dizer que é pura babaquice essa necessidade que se criou de ter uma causa/efeito para tudo, as coisas podem e devem muito bem serem causas de si próprias, sem essa necessidade de lançar-se à frente o tempo todo - mas daí já é opinião e divergência ideológica profunda e me contento em quebrar a lógica dentro dos preceitos do próprio enunciador.
Já sobre a poesia ser encarada como algo "informal" e sem grandes utilidades dentro da linguagem (criando assim uma espécie de oposição entre a poesia e a prosa) digo que isso é puro fetiche literário, a poesia é uma eterna construção e que depende necessariamente da experimentação do real para existir - não que a prosa não dependa, veja bem minha intenção aqui não é criar uma oposição entre elas, só justificar a importância das duas - a coisa com a poesia se torna ainda mais complicada à partir do momento em que ela serve como instrumento de quebra e ruptura com dogmas literários que estão em cima dela e a constituem (os quais a prosa à muito já não se vê dominada) como por exemplo a necessidade da existência de uma métrica, uma rima, estética e assim por diante - problema todo é que não há mais necessidade em permanecer presa a estas correntes e ao quebrar com elas a poesia passa a ser julgada como rebelde e já não mais necessária para a literatura, eu me pergunto, por que há tanto interesse assim na literatura em manter uma espécie de status quo? Acho que é caso para se pensar com calma...
Bom este texto é básico e tem como função/efeito (já que adoram se apegar a essa necessidade estranha) levantar algumas questões e deixar espaço aberto para que cada um possa responde-las de alguma forma, além é claro de provocar os detentores do saber moral e vigilantes da linguagem escrita e falada (os verdadeiros empata-foda da linguagem). Por fim deixo a dica de leitura: Manifestos de Claudio Willer - Editora Azougue por R$ 36,90.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Percebo que os trilhos do trem estão todos enferrujados enquanto caminho cambaleante por um terreno baldio a uns cem metros da estação, devem ser umas sete ou oito horas, o sol já se pôs mas ainda percebo uma luz vermelha no horizonte, está tudo escuro, a grama é alta, sento-me em uns ferro-velhos amontoados na beira do trilho, na estação - não tão distante assim para que a pudesse perder de vista, percebo alguns vultos, um trem passa rasgando pelo trilho, levantando vento e poeira, bebo um gole do Scotch que tenho em mãos e respiro aquele ar denso e quente. As nuvens negras no céu parecem cantar uma oração premonitória - em breve irá chover, passo a mão pela minha barba e então bebo mais um gole daquele uísque, procuro cigarros no bolso e percebo um maço quase vazio, acendo - talvez o último. Essa sensação de estar sozinho aqui observando essa agitação vazia das pessoas é como se um delta blues tocasse minha decadência como humano. Trago o cigarro lembrando da sua pressa em pegar o metro naquele dia, da forma com que bateu a porta na nossa última discussão, do seu vestido florido curto na varanda do seu apartamento e da minha mão no meio da suas pernas. Solto a fumaça, publicaram uma das minhas crônicas dia desses no jornal do bairro, um crítica ao transporte público encoberta na história de um cobrador incompetente - você vivia dizendo que eu deveria mandar alguma coisa para lá, então eu o fiz, pensei em te escrever falando sobre isso, mas já estava muito tarde e eu estava muito bêbado. Fico feliz que tenha mandado um cartão no meu aniversário - você assinou "de Buenos Aires.", fico me perguntando se ainda pensa em mim, dia desses a Clara te viu no supermercado - disse que você tinha um sorriso sincero no rosto, mas a verdade é que teu sorriso sempre foi sincero. Joguei a bituca fora, chutei o chão só para levantar areia e a ver caindo devagar, atravessei o trilho, segui por uma viela escura até a avenida principal e de lá até a estação, havia uma banca de jornais, entrei e comprei a "Folha de S.Paulo", deixei ali boa parte das moedas que tinha no bolso, coloquei o jornal e minha garrafa de uísque na sacola, fui até a estação e comprei um bilhete, me sentei em um banco esperando o trem, havia duas garotas conversando, a saia azul de uma deixava à mostra a pele branca de suas pernas, eu ri sozinho ao perceber que a "comia com os olhos" - o trem chegou e em casa eu me sentei para conversar com meu amigo escocês enquanto algum disco do Bo Diddley tocava, enquanto o uísque descia quente eu me perguntava o que faz as pessoas pensarem que é fácil dizer a deus à alguém? Fui até a varanda, a chuva já estava leve, os carros passavam na rua, uma mulher discutia com um homem em um carro estacionado, a cidade grunhia e me convidava para sua noite - resolvi ir ao nosso bar favorito. "Uma dose de tequila ouro por favor.", me sentei em uma mesa próxima à janela, as ruas restavam molhadas e tudo isso aí fora continuava não fazendo sentido algum. A única certeza da vida continuava sendo sua incerteza, paguei a conta com o cartão e caminhei algumas quadras não pensando em nada, talvez eu esteja passando muito tempo sozinho e talvez as pessoas não tenham muita ideia do que falam sobre as outras. Novamente, tudo é incerto e continua assim até o momento em que passa, na verdade o passado não conta mentiras. Respirei fundo, a noite não estava tão ruim assim. Havia cartas na caixa do correio, nenhuma delas era sua. O governador falava no noticiário enquanto eu vomitava na privada. Achei cigarros na escrivaninha e te escrevi uma carta.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

stand-up comedy com leite - venturini.

quer ouvir uma piada?
um certo dia um sujeito descobre
que tudo isso não significa nada
então ele sobe no telhado de sua casa
e pula com uma pedra de uns 50kg
amarrada ao seu pé esquerdo
deixando um bilhete suicida em sua meia
"ainda há aqueles que acreditam
que a bolsa de valores vale alguma coisa."
- já podem rir, a piada é essa
e se não fosse tão trágica seria cômica,
mas não riam demais tem outra coisa
quando chegou do outro lado
esse mesmo cara descobriu
que tudo é só um vazio de expectativas
então ele se sentou ao lado de um
monge tibetano que dizia já ter conversado
com cristo e esperou a aurora
afinal, não há porque ter pressa na
eternidade não é?
quem me contou essa piada
certa vez, foi um velho em um bar
só queria me lembrar do nome dele...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Maré

"A poesia é subversão do corpo."
- Octavio Paz.
"uno"
grita o corpo
enquanto a alma escorre pela carne
e se transforma em febre até os ossos
se torna jardim nos fundos da casa
e cor nas paredes opacas de antes
e o desejo dos alicerces agora é também
vibração das cortinas e do vento leve
que toma por completo a sala de estar
a alma sorri e se sasseia no ventre do corpo
que diz: "bem aventurado seja este matrimônio"
e juntos vibram, cantam, gozam e são
- o corpo que antes se envergava
para colher seus vestígios ao chão
agora admira a aurora e os céus
o corpo que antes era raquítico
e escondia suas vergonhas
agora beija a alma e se lambuza
com o batom vermelho do tempo
o corpo que antes era fardo
sendo carregado e arrastado por aí
agora é fruto de prazer
o corpo que antes era quieto
agora se admira com os mistérios
da sua doce completude.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

para g. de algum lugar que não é aqui - parte II

o sonho que se dissolve
nada mais é do que a vida
que escorre em condensação
por entre os fragmentos do dia
e penetra a memória devagar
como flashes de cinema
gravando aos poucos retratos
na escultura da eternidade

seu sorriso não ousa desbotar
porque quero que ele permaneça
e nesses momentos a irrealidade
da vida se mostra aos meus olhos
como uma flor silvestre e rara
mas que nos acompanha dia-a-dia

os momentos não são concretos
como nos faz acreditar a medicina
ou a física quântica da história
são apenas devaneios vívidos
daquilo que nos parece ser

os segundos valem menos
do que os sentimentos que são
uma tatuagem na essência do ser
e uma metáfora para o sentido de
tudo isso que nos cerca aqui e agora

seu sorriso não ousa desbotar
da minha memória frágil e inocente
pois fiz questão de deixa-lo guardado
a felicidade está nele - a sua e a minha

quero que dure mais um pouco
e esse "mais um pouco" pode
durar ainda mais e assim por diante
pois o que vale nessa historia
de músico viajante nos trens de carga
da vida é o fato de que sempre estamos
preparados para nos sentir bem

seu sorriso não ousa desbotar
em mim e espero que em você também
sentemos um pouco porque o sol já está
para se pôr e faço questão de que
ele ainda nos assista juntos esta noite.