sábado, 23 de agosto de 2014

O contrário da morte não é a vida, é o amor.

Lembro-me de certa vez em uma festa para São Pedro, estávamos nos limites da cidade, em um campo no qual ao longe podíamos ver as luzes das casas e dos carros na metrópole que se estendia para além de seus limites, naquele pequeno terreno em meio à árvores silenciosas, árvores que projetavam sombras negras e assustadoras para bem próximo de uma fogueira de dois ou três metros de altura, ali enquanto olhava por entre as chamas da fogueira para a cidade lá no fundo, enquanto percebia o oxigênio sendo queimado e desaparecendo em ondas, com os estalos da madeira se destruindo, minha consciência se depositou na vida, uma tristeza bem parecida com esta que sinto agora havia se abatido sobre mim.
Eu estava me sentindo sozinho, mas havia pessoas ao meu lado, pessoas rindo, pessoas observando os fogos de artifício explodirem no céu, pessoas contando historias, pessoas se olhando com confiança e empatia, havia um clima de felicidade, mas eu me senti deslocado, não porque eu tivesse algum problema com essas pessoas - como poderia, são eles parte de minha família - que falavam sobre tempos anteriores com tamanho vigor, e olhavam umas as outras sorrindo em correspondência, não, não por isso. Havia um sentimento em mim, na verdade um conflito, é difícil descrever algo assim, talvez seja culpa da minha limitada capacidade humana de abstração - retomei o medo, e como não senti-lo no ponto em que minha consciência estava julgando sua própria existência. A existência precede a essência, diria Sartre, e a verdadeira angustia do homem não está nos conflitos os quais encontra no mundo, mas justamente por estar consciente de sua finitude; o medo da morte, ele sempre vai estar ali, uma nuvem negra que faz com que nossos planos tornem-se tão frágeis como se fossem feitos de fumaça, a morte os rasga como se fossem fina seda. Olhando para aquela fogueira eu não estava com minha consciência voltada para minha morte, eu estava justamente voltando-a para a limitação da vida, isto é, há uma diferença entre ambas as coisas, a morte nada mais é que um ato, o derradeiro ato, que projeta o fim de tudo aquilo que um dia poderá ser feito, e é aí que ambas as coisas se encontram, a limitação da vida diz respeito a compreender que seu tempo é curto; meu tempo é curto para não admitir por exemplo que você também permeava minha consciência naquele momento. Naquela época eu já estava ciente de que a vida como este fator rotineiro ou como os grandes e almejados sonhos não são assim de maneira tão clara a oposição da morte, aqui devo citar Roberto Freire: "O contrário da morte não é a vida, é o amor". E desde que minha vida se tornou essa complicação toda, desde que percebi minha finitude como ser e com isto surgiram problemas existenciais - os quais também trouxeram imensas soluções cotidianas - desde esse ponto, eu só pude me sentir tão vivo - como havia me sentido outrora, na minha quente e esperançosa infância da inocência - quando soube que estava te amando e que de alguma forma eu imaginava que você me amasse. Eu via a brasa queimar, minhas mãos estavam geladas, eu me aproximei da fogueira e percebi que já não me sentia assim - eu já não me sentia tão vivo.
Devido aos fatos, devido a como toda essa loucura - sim é realmente um tempo repleto de fatos os quais hoje me parecem desconexos e pouco prováveis de conter alguma razão, seja pela forma com que se deram, seja pela forma com que eu queria que tivessem ocorrido - por muito tempo eu preferi tentar dar cabo de qualquer coisa que sentisse por você - entrei em um complexo processo de negação; neguei você; neguei lembranças ou coisas que me faziam lembrar de você; neguei até mesmo sua existência. Mas a negação não fez com que você saísse dos meus sonhos - nem ela, nem outros amores, como você mesma disse "não se cura um amor com outro" - neste ponto, em meados de julho, eu já havia desistido de lutar, mas ainda havia - há - um estranho "oco" dentro de mim, as vezes me pergunto quando este oco poderá se fechar, em dias que estou esperançoso eu digo que isso vai passar quando naturalmente eu te esquecer, e depois disso vai haver um tempo em que não me perguntarei certas coisas, então do nada vai surgir alguém e ocupar este espaço, e há dias como hoje, dias em que eu me sinto só e frágil, o problema de hoje é que não há festa, fogueira, nem as luzes da cidade, há apenas eu e meu quarto, em uma semana em que minha confiança em mim mesmo - e em algumas pessoas - foi reduzida a zero, em uma semana em que tive problemas e me senti estranho o suficiente para perceber que não tenho ninguém para contar estes problemas - ao menos não alguém que me entendesse da forma que você poderia entender - sei lá, mas não quero te aporrinhar com estas coisas, te mandando uma mensagem em plena madrugada para dizer que estou mal e inventar uma desculpa qualquer para não admitir que estou mal também porque me falta você aqui, não quero te aborrecer porque você já tem seus problemas, e não precisa de um quase estranho - afinal, já tem quanto tempo que não te vejo? Um ano? - trazendo mais problemas, em uma semana como essa, eu já não sei bem quando esse vazio vai passar.
A gente muda, o tempo passa, há sempre uma nova vida para acontecer a cada instante, há sempre um novo sorriso no metrô, há sempre um novo céu azul pela manhã, há sempre um novo domingo com a família, há sempre uma nova noite perdido nas ruas da cidade com os amigos, há sempre um novo discurso que faço e há lembranças de você hoje - pode haver para sempre, não me importa - só não quero me sentir tão sozinho, isto está custando muito do que ainda me sobra - repare, não disse que te quero, nem que não quero, só estou aberto as possibilidades, só estou aberto à mim mesmo e enquanto as coisas não acontecem fico aqui, ouvindo estas musicas eletrônicas depressivas enquanto tomo o trem de volta para casa e vejo os prédios do centro da cidade se esvaecendo.

Desculpe-me escrever sobre isso...



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Anjos Caídos.

Eu não lembro exatamente como, mas não tem lá muito tempo eu conhecia a obra literária de Charles Bukowski, é um espanto se dar de cara com um poeta tão visceral, sua obra é como um retrato de tudo aquilo que há à margem, fora das capas de revistas e dos programas de televisão. Sua obra não reflete sonhos, mas também não reflete a desesperança, poderíamos dizer que ela é apenas um periscópio da realidade, um retrato do mundo antes de passar maquiagem, um mundo de cara lavada.
Dizem por aí que só é possível se escrever sobre aquilo que se vive, eu não posso atestar essa teoria, mas com certeza Bukowski - ou simplesmente Buk, como preferir - a colocou à toda prova. Prostitutas, bares, corridas de cavalo, tudo isso é cenário de uma obra que é como uma ferida exposta, ainda não cicatrizada, é como a cena de um crime ainda não violada, na qual as digitais do autor estão ali e realmente estão, Buk viveu boa parte do que escreveu e até em livros como Pulp em que ele se afasta de seu alter ego Henry Chinaski podemos claramente ver suas as características pessoais ali depositadas; os personagens não remetem simplesmente a estas características, eles a vivem, como se essencialmente fossem o pressuposto ideológico de seu viver.
Mas Bukowski não escreve apenas sobre o seu viver, mas sim - como todo bom escritor - age como um fotógrafo, que por sua vez têm poderes especiais: é capaz de captar a visão de mundo daqueles que o cercam. O que pensam as prostitutas? Será que alguém que não viva com elas poderá responder? Não seria preciso estar a margem da sociedade para perceber como tudo funciona fora dessa grande bolha na qual a classe média prefere se enfiar? Não só a classe média, mas sim todos aqueles que acreditam no ideal de conforto e recompensa material que nos é pregado, conseguimos enxergar o que há para além das sacolas de papelão nas quais nosso fast-food vêm dentro? Por que acreditamos que há pessoas que são pontos sem nó? Por simplesmente não se encaixarem dentro daquilo que enxergamos como padrão de vida? Padrão, tá aí uma palavra que me incomoda muito...
Vamos voltar ao velho Bukowski e sua mania de se firmar um outsider em um mundo em que todos sentem orgulho de sua vaidade decadente, em um mundo em que aqueles que são julgados anjos caídos são muito mais santificados do que aqueles que vomitam em nome da moral e dos bons costumes. Vamos voltar ao Buk, pois lá há muito mais da realidade do que todos gostariam de admitir. Vamos voltar para lá, onde a realidade está nua de suas mentiras!

domingo, 3 de agosto de 2014

Eu te amo.

Eu cantei o mantra dos indianos com mendigos em ruas irregulares
e recitei com a voz inconsistente seu nome para a lua,
para o caos e todos os pedestres que quisessem ouvir
enquanto a noite nascia ardente sobre o inverno

Eu caí em praças nevoadas em plena madrugada
olhando as estrelas que com faíscas explodiam sob minha cabeça
e entre fagulhas e vertigens percebi sua imagem entorpecendo minha mente
me deixando completamente obscuro sobre o sentido da vida
e todas as dores mortais que cercam os homens

Estive me arrastando por meses adentro
de anos que pareciam intermináveis
e quando a sede de seus lábios recaiu sobre minha alma
tive alucinações em que imaginei tocar sua pele
enquanto mantinha minha atenção no som de sua voz

Te vi nas ruas do centro da cidade
quando a noite reinava incrédula de meu amor,
me perdi por entre a multidão nos vagões dos trens
e te encontrei nas melodias que tocavam,
nas vozes roucas das canções que tanto me lembravam de você

E em domingos mortais nos quais o sol queimava o asfalto
fazendo surgir no meio da metrópole um vasto deserto
senti meu coração pulsar em um ritmo desolado
enquanto minha memória rompia a séria trégua
que havia selado meses antes com meus sentimentos

Em conversas binárias na madrugada
na escuridão plena de meu quarto
o impulso forte partindo de minhas artérias
selou com palavras a inquietação de outrora
"Eu te amo".

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Para Jorge.

Amigo obrigado,
por todas as palavras
bem escritas,
lê-las foi como ver um retrato
recortado de um álbum
de fotografias maior,
desses que deixamos
empoeirados e acinzentados
na estante,
e só ganham vida quando olhamos
foto por foto,
é isto que você fez,
uma foto,
colorida e pulsante,
viva e intensa,
delicada e chocante,
forte e com gosto amargo
e que termina com as vibrações
da maré atingindo a praia
em uma noite de
réveillon fria e densa
onde rostos tingidos
de sentimentos desconhecidos
que por alguns instantes
passam à nos pertencer
nos encaram e se tornam
abertos, sem segredos
pois são agora personagens
de um livro
que daria um baita filme
mas não desses clichês hollywoodianos
acho que está mais para algo francês
ou britânico,
graças ao senso de humor
e o potencial para ser um clássico.