segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dos conflitos entre a natureza e a razão.



 
"Mas o que sabe um cão, em sua consciência, sobre a loucura?"

Certamente cheguei a Jack London (1876-1916) por pura influência literária, citações ao seu nome não cessam em qualquer literatura contemporânea robusta, li inicialmente algum trecho curto sobre seu período como viajante em textos sobre autores que foram precedentes à Kerouac (Jean-Louis/Jack) no quesito de andarilhos literários, assim como a "Nota sobre a vida e obra de London"¹ de Caninos Brancos viria a citar: "Suas experiências como andarilho e vagabundo foram relatadas em A Estrada (1907), o precursor das obras de John dos Passos e Jack Kerouac". Mas não foi apenas a leitura de textos que tratavam de sua influência que me projetou à sua obra, mas sim ao me ver de cara com um de seus livros e ler rapidamente a contra-capa, este livro era Caninos Brancos (1906) e a proposta parecia interessante, um lobo selvagem que se vê sendo domesticado. De relance pode parecer um chavão, mas algo me fez não esperar nenhum cachorro falante, mas sim, algo mais abstrato no que se trata da visão de mundo de um animal e sua relação com os seres humanos.
O livro se inicia furioso, te joga na situação de uma maneira não esperada, o narrador em terceira pessoa não entrega o jogo, mesmo sendo onisciente, temos espaço para imaginar o desenrolar das cenas e isso se torna muito mais fácil com a grande capacidade descritiva de London, não que o nível de detalhes seja impressionante, simplesmente cabem na medida certa, temos a chance de ver as cenas com a tensão que o autor deseja sem que se percam totalmente no horizonte da imaginação e da auto-conclusão.
O início furioso do livro se propaga em uma calmaria e uma desaceleração ainda nos primeiros atos, a historia é brandamente contada e percorre todos os espaços possíveis da vida do jovem lobo Caninos Brancos, mostrando o desenvolvimento animal (por vezes bestial) daquele ser que está se deparando com o conflito entre o que a natureza produz e as leis civilizadoras do homem, podemos sentir o embate entre seus instintos e aquilo que é chamado de moral por nós; e é aí que está a grande cartada do livro o lobo selvagem que está sendo domesticado simplesmente não consegue se adaptar ao meio humano com tanta facilidade, ou melhor, da forma humana que esperamos, ele ainda é um animal, ainda trás em si a essência furiosa da natureza, o "barro" do qual foi feito não é fácil de moldar, ainda há o lado selvagem. Neste ponto London nos leva a pensar na forma com que agimos com animais dos quais estamos acostumados a ver domesticados, exigindo muitas vezes que eles tenham atitudes que não os pertencem, pois são atitudes humanas incompreensíveis e intangíveis ao comportamento de um cão, estamos querendo assim que os animais se apropriem de nossa consciência e dos nossos processos cognitivos. Vale lembrar que London escreveu e publicou esta obra bem antes dos estudos de Ivan Pavlov² sobre os animais, sendo assim toda fonte para a obra seria sua própria observação do comportamento de diversas espécies durante os períodos de sua vida que passou em contato com a natureza selvagem.
Concluo com uma forte recomendação a leitura do livro, acredito ser desses títulos obrigatórios a todos que se interessem fortemente por literatura e até mesmo para iniciantes, salvo que a narrativa de London é clara e sem sombra de dúvidas incrível, para quem estiver interessado o livro se encontra disponível no recente projeto da Penguin Books em parceria com a Companhia das Letras, fica a dica de em primeiro momento evitar a introdução de Daniel Galera, que claramente contêm trechos "do que está por vir" (os famosos spoilers), mas rende uma boa reflexão posterior; London certamente é um daqueles escritores que merecem um espaço especial na estante e no coração, sua vasta obra inclui mais de cinquenta livros (poucos traduzidos e editados para o Brasil) que esperam para serem desbravados e redescobertos pelas novas gerações de leitores.



¹ Nota por Andrew Sinclair na edição da Penguim Companhia.
² Ivan Pavlov fisiólogo russo que com suas observações e estudos sobre o comportamento animal viria a influenciar a psicologia behaviorista.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Procura-se um amor

Procuro meu amor no canto do coração
na mais singela demonstração de afeto
no denso brilho negro da madrugada
Procuro meu amor em uma lista telefonica
onde todos os números só chamam em vão
talvez meu amor fosse aquela garota do metrô
que eu deixei de dizer "oi"
ou aquela meiga loirinha com uma franja 
- que encontrei no caminho da faculdade
e nem me atrevi em pedir o número do celular
talvez meu amor já tenha me deixado
mas eu não deixei de procurar por ele
e se o encontrar
espero que eu também seja seu amor

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O eterno retorno.

A privação de nossos desejos por uma moral quase criminosa, é exatamente isso que podemos ver no horizonte, podemos claramente enxergar o peso que tem aquilo que subjetivamente acreditamos ser sensato e ser correto, pois através de um modelo social somos praticamente condicionados (isto é, antes do despertar da consciência) a acreditar que a forma correta de justificar nossa existência é seguindo este modelo, e todos aqueles que se encontrem fora dele são vistos como marginalizados, isto em uma sociedade em que o valor social se dá através de o quão mais bem adaptado você estiver a este meio e não através do peso de seus atos.
A obra de Nietzsche é um despertar, por toda ela, ele (Nietzsche) se mostra um voraz inimigo da moral vigente e há um ponto em específico que me toca bastante "O eterno retorno".
Basicamente o ponto é; se sua vida se repetisse por toda a eternidade, você estaria vivendo como desejaria viver? Cada momento de prazer que você preferiu trocar por uma árdua e desgastante tarefa na qual acredita que a recompensa irá vir sempre em um amanhã que nunca chega, teria sido um momento jogado fora para todo o sempre, isso faria com que buscássemos não um constante prazer, mas nós reveríamos cada ato em busca daquilo que realmente desejamos, não projetando isso sempre em responsabilidades, muito menos em um futuro distante, já que o hoje é mais importante que o amanhã; Pois é nele que se projeta o futuro e além, se projeta a eternidade, então seu presente não pode ser um fardo, é claro que isso não anula seus projetos futuros, seus planos de vida, mas sim faz com que busque unicamente aquilo que realmente deseja, não se deixando privar por anseios sociais que não lhe pertencem. Precisamos projetar nossa vida realmente na direção que desejamos, e isso só se dá com uma mudança de consciência em um hoje.
Fugir ao modelo social não se torna desgastante, desgastante seria estar atrelado a ele pelo restante da vida, vivendo não o que se acredita, mas sim da forma que seria razoável aos olhos de uma sociedade cravada em uma moral, que vai além de ser civilizadora (se fosse apenas civilizadora, não causaria mal algum), mas é uma moral que condena o homem, sua individualidade, sua liberdade e seus direito a escolhas.

Confira:
Artigo sobre O eterno retorno.

Cena do filme "Quando Nietzsche chorou".





domingo, 20 de julho de 2014

Projeções de um inverno qualquer.

Está frio neste sábado a noite, a cidade de São Paulo se cala fora de minha janela, seus carros cruzando as avenidas da solidão em direção a qualquer lugar parecem ter me dado o minuto de silêncio o qual necessitava. Não estou distante de mim mesmo nos últimos dias, tive a aproximação que necessitava para que o desalento de meu coração se cessasse e todas perturbações da mente por fim como os carros na rodovia respeitassem meu eu.
Me perguntava como se estivesse diante do espelho em uma manhã fria, ou diante de um tribunal que me acusava de injúria ao meu próprio ser; "Quem sou eu?"
Talvez de todas aquelas perturbações internas esta fosse a que mais gritava forte, mais gemia escarnando o que me restava de sanidade, mais me botava de joelhos preso em uma camisa de força; "Quem sou eu?"
Costumamos fazer perguntas todos os dias, a cada minuto, mas por que então, esta pergunta parece tão difícil de ser respondida? É claro, podemos a responder de maneira simples "Eu sou, quem sou" ou "Eu sou estudante...", "Eu sou um jovem de...", mas seria esta uma resposta apropriada? Não seria necessário um pouco mais de... digamos, existencialismo? Ao decorrer de tais pensamentos, percebi um pedaço vazio, um bloco de existência faltante, eu precisava de respostas, e somente pude as encontrar em mim.
Tais respostas não surgiram assim, facilmente, precisei de tempo e de perguntas. O mundo enlouquece na ausência delas, ele cai implorando para que sejam feitas, para que o pensamento prossiga na sua tentativa frustrada de justificar sua essência, mas por que mesmo diante desse esforço estratosférico do mundo alguns ainda escolhem viver de maneira tão automática? E por que eu decidi romper essa barreira?
Certamente não sou digno de dar respostas pelos outros, mas quanto a falar por mim mesmo, disto sou capaz, o processo de não me calar em relação aos meus questionamentos foi longo (e certamente é algo contínuo) até chegar a este ponto de "lucidez" (que está distante de ser uma completa lucidez existencial) muitas perguntas precisaram ser feitas "por que o mundo é feito de tamanho sofrimento?", "onde está tal sofrimento?", "por que necessitamos passar por ele?" e assim percebi que eu questionava o próprio sentido da vida, e com tais questionamentos, rompi sozinho e sem querer a barreira da consciência de estar vivo. O sentido da vida é sempre almejado pelo ser humano, mas a única resposta que poderemos ter é em nós mesmos e justificar sua existência é tão complexo quanto entender o motivo dela. São perguntas que diariamente vem a tona, surgem como fogo e a tristeza certamente é um gatilho fatal para que tais perguntas despontem na vida de alguém. A busca existencial é como parte de uma busca para preencher o vazio e só com algumas respostas a sensação de insuficiência se vê sanada, mesmo que tais respostas não representem nem uma pequena parcela das perguntas existenciais que a vida tem a oferecer, mas certamente representam o alívio de um grande peso. Unicamente vejo minhas respostas apontando na direção a da liberdade, a do peso de meus atos, que tem como consequência o sentido de toda a minha existência, o sentido para mim está no próprio ato de existir, no desdobramento do que faço, cito o reflexo, pois somos isso, apenas o reflexo que se projeta no mundo com a intenção de transforma-lo, para onde, está já é a justificativa para o sentido. Se projetar nossos atos dá sentido a existência, certamente como projetaremos tais atos justificam a existência. Questões como "Por que faço isso?", "Por que ajo de tal maneira?", "Por que penso assim e não de outra forma?" são claramente as minhas tentativas de justificar por que eu creio que devo como ser deixar minha marca, preciso não apenas justificar minha existência, mas também acreditar que o que estou fazendo é bom o suficiente e merecedor de ser uma marca, uma mancha, uma pincelada a mais na grande pintura da historia da humanidade, preciso dizer que o que estou fazendo não é em vão.
Com a conclusão de algumas respostas e questionamentos que tenho levantado ao longo de mais de um ano, enfim, chego as minhas próprias "projeções" de por que existo (este é um "por que" duplo, me diz o sentido da existência ao mesmo tempo em que a justifica).
Estou aqui, em meu quarto já na madrugada de domingo, pensando que tais "projeções" feitas neste inverno serão válidas provavelmente por toda uma vida, toda uma existência, por todo um "porém", por todo um grande "por quê?". Então resolvi criar este espaço por um acaso, precisava de um local onde colocar minhas ideias (e isso inclui textos além de poemas) e o local onde publico atualmente se resume a um espaço altamente poético, já aqui é um lar de ideias, sejam elas em versos ou não, podem ser ideias fotográficas, ideias de papel, ideias digitais e super modernas, mas certamente serão ideias que constantemente mudarão, pois sou um ser em eterna renovação, e seria burrice dizer que jamais mudaria de ideia sobre algo; Certa vez um grande amigo me disse "O homem só é quando morre... As coisas são e os homens existem", então respondendo a minha pergunta inicial: Certamente eu não sou, apenas busco justificar minha existência da melhor forma que posso.