sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ainda há muitos hoje para o amanhã

então é isso?

acabam aqui os dias em que sentei-me ao vazio sob o olhar das estrelas que irradiam as noites americanas sem fim. os dias que contei com as ampulhetas do tempo invertidas em meu estômago inverídico. acabam aqui os choros do maltrapilho malabarista da avenida de nosso coração. acabam aqui as paranoias radioativas que causaram nosso câncer.

então é isso?

o esgotar daquele pouco que restava. o tiro para o alto que acabou caindo no próprio pé. a gastrite mal curada, que teima em acordar-nos nas frias manhãs de fim de outono. a teimosia desvairada das enormes conspirações covardes. a constatação de que a cerveja acabou e a tristeza não durou tanto quanto achávamos que devia.

então é isso?

é isso porque não é segredo. é isso porque é o que resta. é isso porque queremos que seja assim. é isso porque não houve se quer começo. é isso porque o fim não se pinta assim, como se fosse bonito. é isso porque é brutal. é isso porque é visceral. é isso porque estamos vivos e não sabemos quanto mais pode durar o espetáculo. é isso porque devemos arriscar, nem que seja para andar a pé do alabama à feira de santana. é isso porque o filme é em super 8 e nossos diretores favoritos já estão velhos ou mortos. é isso porque a tarde se esvazia com o sol se pondo à meio ponto no horizonte. é isso porque já estivemos loucos por tempo demais. é isso porque a vida não é doce, nem para mim nem para você.

então é isso.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Re- há -lidade

É o fim da noite
me restam algumas moedas
sobre o criado
meus pais no quarto ao lado
a lâmpada acessa
papéis amassados
livros empoeirados
alguma metafísica
que talvez um dia
me sirva para algo
Jim Morrison
cantando bêbado
ou louco de LSD
e uma janela
com um mundo lá fora
enfim, algumas poucas coisas
e o sentimento arcaico de
não entender muito bem
o que acontece
me resta minha loucura particular
e o conceito de medíocre
todos se misturando
e me vomitando
de volta a realidade.

sábado, 11 de outubro de 2014

queria dar a este poema seu nome.

o que sinto é dor. porque não se traduz de outro modo esse sentimento. dor atroz. que atrofia minha caixa torácica, corta meus nervos, consome meu coração e poluí minha mente. a noite se torna mais negra e não poderia ser mais vazia. o vazio é falta, saudade do que não tenho - e não tive. o vazio não é só da existência - que até hoje não se justifica, o vazio é claramente falta de você. não sei porque os poetas não podem mais falar de amor. quero que todos eles se fodam. sou só eu neste quarto amarrado a este sentimento, com a janela aberta e o mundo me engolindo lá fora, só eu e mais ninguém. por estes dias os sorrisos me cansam, os rostos felizes me enojam, tenho vontade de soca-los para que se emudeçam e se calem. felicidade não contagia, deprime ainda mais. por quê? porque tenho inveja de seus sorrisos gordos em rosto corados e verdadeiramente satisfeitos - veja bem, não digo estar insatisfeito com tudo, não poderia admitir isto. mas a este ponto o quarto já se tornou nebuloso e não sei o que diabos faço ouvindo estas músicas, que são só mais uma maldita ferida aberta. a cale-se pedro, cale-se, você não tem razão no que fala, não tem razão no que pensa, de certo é só mais um homem louco, e como poderia ser o contrário? cada um e sua loucura particular. hoje lhe convido a dançar em minhas mágoas e você me levará para onde amanhã? garota, isto bem que poderia ser uma carta de confissão cuja a qual o destinatário jamais foi tão correto. lembro de ter sonhado contigo esta noite. não lembro exatamente o que. só sei que apenas me restava seu rosto em um corredor vazio. e o que me resta de ti agora? só a espera de que venha e me salve desse afogamento repentino. penso em você e logo me lembro que os poetas estão errados, o amor não cabe em palavras.



Nota: roubei aqui, a inovadora tetralogia das minúsculas de valter hugo mae.